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Mostrando postagens de janeiro, 2026

Paul Delay: talento, queda e redenção no blues de Portland

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Paul Delay: talento, queda e redenção no blues de Portland Paul Delay foi um dos maiores gaitistas do blues norte-americano fora do eixo Chicago–Delta . Dono de um fraseado elétrico, agressivo e profundamente urbano, ele transformou Portland, no Oregon, em um ponto luminoso do mapa do blues contemporâneo. Sua história, porém, é marcada por contrastes: genialidade musical, dependência química, prisão, silêncio forçado — e, depois, um retorno honesto e ferido à música. Raízes e formação de um gaitista singular Nascido em 1952, Paul Delay cresceu ouvindo blues elétrico, soul e rock, absorvendo referências que iam de Little Walter a Junior Wells, mas sempre com um sotaque próprio. Seu jeito de tocar gaita era explosivo, moderno e sem reverência excessiva ao passado . Delay não queria imitar; queria confrontar. Nos anos 1980, já estabelecido em Portland, ele começou a se destacar como músico de bar, estúdio e palco, chamando atenção pela intensidade das apresentações e pela capacid...

Indigenous: o blues nascido no coração da reserva de Yankton

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Indigenous: o blues nascido no coração da reserva de Yankton No coração da Reserva Indígena de Yankton, em South Dakota, nasceu uma das histórias mais vibrantes e autênticas do blues rock contemporâneo: a da banda Indigenous . Formada por irmãos e familiares da nação Nakota (Lakota), a banda transformou a dor e a celebração da cultura indígena em guitarras que cortam a alma, riffs que queimam como o deserto e letras que ecoam como histórias de resistência. Origens na reserva, música como identidade Indigenous não surgiu em um porão qualquer, mas sim em um ambiente onde a música e a ancestralidade caminham lado a lado. Crescer na Reserva de Yankton significou para o grupo — liderado pelo guitarrista e vocalista Mato Nanji — imergir em tradições orais, em lutas comuns e em uma conexão íntima com a terra e os antepassados. Com seus irmãos Pte (baixo) e Wanbdi (bateria e vocais), além do primo Horse (percussão), e incentivados pelo pai, músico e ativista, eles fundiram uma sonorida...

Elise Frank e o blues em estado bruto

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Elise Frank e o blues em estado bruto Há artistas que não pedem licença para tocar. Elise Frank é uma delas. Guitarrista e cantora francesa, Frank surge no blues contemporâneo com a urgência de quem aprendeu cedo que a música não é ornamento — é sobrevivência, é identidade, é confronto direto com a própria verdade. Seu nome vem ganhando espaço no circuito europeu não por estratégias de mercado, mas por algo mais raro: autenticidade sonora . Cada acorde, cada verso e cada solo carregam a marca de quem viveu o blues antes de tocá-lo. Uma voz que nasce da estrada Segundo o texto de apresentação escrito por Michael Roland no site oficial da artista, Elise Frank construiu sua musicalidade longe de fórmulas prontas. A estrada, os palcos pequenos, os encontros improvisados e a necessidade de dizer algo verdadeiro moldaram sua identidade artística. Frank canta como quem confessa . Sua voz carrega aspereza e vulnerabilidade, transitando entre o blues tradicional e o blues-rock conte...

Cash McCall: o elo discreto entre soul, funk e blues

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Cash McCall: o elo discreto entre soul, funk e blues Quando a história do blues elétrico se encontra com as raízes do soul e do gospel , raramente ela é contada com a profundidade da voz e da guitarra de Cash McCall . Nascido Maurice Dollison Jr. em 28 de janeiro de 1941, no Missouri, McCall construiu uma carreira que atravessou décadas, selando sua reputação como um artista versátil e autêntico – um verdadeiro viajante da música americana. Desde o início na música religiosa em grupos gospel de Chicago até suas gravações como músico de estúdio na lendária Chess Records , McCall deixou sua marca ao tocar com grandes nomes e ao mesmo tempo trilhar um caminho próprio. Sua jornada atravessa os campos do soul, R&B e, especialmente, do blues, sempre com sensibilidade e energia. O som além das fronteiras Ao longo dos anos 1970, McCall não se confinou a um único estilo. Lançamentos como Omega Man mostram um músico que incorpora elementos de funk e soul ao seu blues de base. Essa...

Andrew “Smokey” Hogg: o blues poeirento do Texas

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Andrew “Smokey” Hogg: o blues poeirento do Texas Celebrar o nascimento de Andrew “Smokey” Hogg é voltar a um tempo em que o blues ainda era poeira na estrada, madeira rangendo nos alpendres e noites longas embaladas por um violão sem pressa. Nascido em 27 de janeiro de 1914 , no Texas rural, Hogg foi um desses artistas que não pediram licença à história — apenas tocaram, cantaram e deixaram o rastro. Raízes no Texas profundo Criado em fazenda, Smokey Hogg aprendeu a tocar com o pai e cedo mergulhou no circuito de bailes, juke joints e esquinas poeirentas do leste do Texas. Era um blues de chão batido, moldado pela repetição hipnótica, pela voz grave e por um violão que parecia conversar com o silêncio. Ali se formou um estilo que misturava country blues e a cadência urbana que começava a ganhar corpo no pós-guerra. Primeiras gravações e a volta por cima Em 1937, ainda como Andrew Hogg , registrou suas primeiras canções em Dallas. O mundo, no entanto, demorou a ouvir. A con...

Sam Carr e os Delta Jukes: o pulso eterno dos juke joints do Mississippi

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Sam Carr e os Delta Jukes: o pulso eterno dos juke joints do Mississippi Há músicos que se impõem pelo virtuosismo. Outros, pela intensidade. Sam Carr pertence a uma linhagem ainda mais rara: a dos que sustentam o blues pelo pulso . Seu nome talvez não esteja nos holofotes, mas ecoa firme no assoalho gasto dos juke joints do Delta, onde o ritmo não é ornamento — é sobrevivência. Nascido como Samuel Lee McCollum, em 17 de abril de 1926, na região entre o Mississippi e o Arkansas, Sam Carr cresceu respirando blues. Era filho de Robert Nighthawk , um dos grandes arquitetos do electric blues do Delta. Ainda assim, Carr escolheu a bateria, instrumento muitas vezes invisível, mas absolutamente vital. E fez dela uma extensão direta da tradição. O baterista que tocava para a canção Sam Carr nunca precisou de excessos. Seu kit era mínimo: bumbo, caixa e chimbal. O que saía dali era groove puro , seco, direto, sem firulas. Seu estilo não buscava protagonismo, mas sustentação. Ele tocava ...

Casey Bill Weldon: música, inovação e silêncio

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Casey Bill Weldon: música, inovação e silêncio Casey Bill Weldon ocupa um lugar singular na história do blues pré-guerra. Guitarrista, cantor e compositor, ele ajudou a redefinir o papel da slide guitar no blues urbano dos anos 1930, deixando um legado profundo mesmo tendo vivido grande parte da vida à margem dos registros oficiais. Sua trajetória é feita de música, inovação e silêncio. Origens envoltas em sombra Nascido como William “Casey Bill” Weldon — identificado por pesquisas posteriores também como Nathan Hammond —, sua data e local de nascimento permanecem incertos. Estima-se que tenha vindo ao mundo entre 1901 e 1909 , possivelmente no Arkansas ou em regiões próximas do Kansas. O apelido “Casey Bill” remete à pronúncia de K.C., Kansas City , cidade que marcou seus primeiros passos no circuito musical. Durante décadas, Weldon foi confundido com outro músico de nome semelhante, o que contribuiu para o apagamento de sua identidade artística. Apenas com o trabalho de h...

Johnny B. Moore: do gospel à eletricidade urbana de Chicago

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Johnny B. Moore: do gospel à eletricidade urbana de Chicago No dia 24 de janeiro de 1950, em Clarksdale, Mississippi , nascia Johnny Belle Moore — mais tarde conhecido como Johnny B. Moore . Vindo de um dos territórios mais simbólicos da história do blues, Moore cresceu cercado por sons que moldaram sua identidade musical: o gospel das igrejas, o lamento rural do Delta e, mais tarde, a eletricidade urbana de Chicago. Celebrar o nascimento de Johnny B. Moore é revisitar uma trajetória que nunca buscou holofotes fáceis, mas que se sustentou pela fidelidade às raízes , pela força da guitarra e por uma postura musical que sempre colocou o blues acima da indústria. Do gospel ao blues elétrico Filho de um pastor batista, Johnny B. Moore aprendeu a tocar guitarra ainda criança, absorvendo primeiro o espírito do gospel. Essa base espiritual nunca o abandonou. Mesmo quando passou a tocar blues, sua música manteve um senso de devoção às origens , algo que se percebe tanto nos vocais qua...

Delta Cross Band: blues elétrico entre Copenhague e o Delta

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Delta Cross Band: blues elétrico entre Copenhague e o Delta A Delta Cross Band ocupa um lugar singular na história do blues europeu. Formada na Dinamarca no fim dos anos 1970, a banda construiu uma ponte sonora entre o blues americano tradicional e a energia urbana do blues-rock , com identidade própria, timbre elétrico e respeito profundo às raízes do gênero. Origens e identidade sonora O grupo nasceu a partir da Delta Blues Band , projeto que já circulava na cena dinamarquesa interpretando clássicos do blues. A virada decisiva aconteceu quando o guitarrista americano Billy Cross se integrou ao grupo, trazendo na bagagem uma vivência direta com o rock e o blues dos Estados Unidos. A partir desse encontro, o nome mudou para Delta Cross Band e a proposta musical ganhou novas camadas. O som da banda passou a combinar guitarras cortantes , grooves sólidos e uma leitura moderna dos standards do blues, sem abandonar o peso emocional e a crueza que definem o estilo. Era blues fei...

Hammie Nixon: a gaita que atravessou seis décadas de blues

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Hammie Nixon: a gaita que atravessou seis décadas de blues Hammie Nixon (22 de janeiro de 1908 – 17 de agosto de 1984) foi um dos grandes arquitetos do blues tradicional americano. Reconhecido mundialmente por sua habilidade singular na gaita , Nixon construiu uma carreira longa e resiliente, atravessando mudanças estéticas, industriais e culturais do blues sem jamais perder o sotaque rural que moldou sua identidade musical. Mais do que um instrumentista, Hammie Nixon foi um elo vivo entre o blues dos anos 1920 e as gravações de resgate cultural das décadas finais do século XX . Sua trajetória ajuda a entender como o blues sobreviveu, se transformou e resistiu ao tempo. As origens e o aprendizado nas jug bands Nascido em Brownsville, Tennessee, Hammie Nixon cresceu em um ambiente onde a música era parte do cotidiano. Ainda jovem, entrou em contato com as jug bands , formações populares no sul dos Estados Unidos que utilizavam instrumentos improvisados como jarros, kazoo, violã...

Snooks Eaglin: o camaleão que fez da guitarra a alma de Nova Orleans

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Snooks Eaglin: o camaleão que fez da guitarra a alma de Nova Orleans Em meio ao caldeirão musical de Nova Orleans, onde jazz, rhythm & blues, soul e blues se entrelaçam numa tapeçaria sonora única, nasceu um dos guitarristas mais enigmáticos e inspiradores de sua geração: Fird Eaglin Jr ., mais conhecido como Snooks Eaglin . Figura reverenciada entre músicos e amada por aficionados do blues, sua trajetória foi marcada por virtuosismo, versatilidade e uma profunda conexão com as raízes da música do sul dos Estados Unidos. Infância e primeiros acordes: as origens de um prodígio Fird Eaglin Jr. veio ao mundo em 21 de janeiro de 1936, no coração de Nova Orleans, Louisiana. Desde muito cedo, demonstrou uma afinidade quase sobrenatural com a música. Diz-se que ainda menino era visto tocando qualquer instrumento que estivesse ao seu alcance, mas foi a guitarra que o capturou de maneira definitiva. Sua habilidade com o instrumento parecia desafiar explicações: autodidata, aprendia ...

Willie King: o blues do Alabama como voz, memória e resistência

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Willie King: o blues do Alabama como voz, memória e resistência Willie King foi mais do que um cantor e guitarrista de blues. Foi um intérprete da história do sul dos Estados Unidos, um artista que entendeu o blues como linguagem política, social e espiritual. Nascido em 18 de março de 1943, em Prairie Point, Mississippi, e criado no Alabama, King construiu uma carreira profundamente ligada à sua comunidade e às raízes mais autênticas do gênero. Do Mississippi ao Alabama profundo Ainda criança, Willie King mudou-se com a família para o Alabama, região marcada por desigualdade racial, trabalho rural e tradições musicais transmitidas de geração em geração. Foi nesse ambiente que o blues se apresentou como uma forma natural de expressão , convivendo com o gospel das igrejas e o soul que ecoava nas rádios locais. Autodidata, King desenvolveu um estilo direto, sem artifícios técnicos excessivos. Sua guitarra servia à canção, enquanto sua voz grave carregava a experiência de quem vi...

Henry Gray: o pianista que deu musculatura ao blues elétrico

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Henry Gray: o pianista que deu musculatura ao blues elétrico Henry Gray (19 de janeiro de 1925 – 14 de fevereiro de 2020) é uma das figuras centrais na história do piano blues moderno. Nascido em Kenner, Louisiana , e criado em Alsen , no sul do estado, Gray cresceu entre espiritualidade, boogie-woogie e a pulsação do blues rural. Desde cedo mostrou talento natural: ainda criança já dominava o piano em cultos da comunidade, alternando entre reverência e improviso. As raízes e o caminho até Chicago Aos 16 anos, Henry Gray já acompanhava músicos locais e, pouco depois, foi convocado para o Exército durante a Segunda Guerra Mundial. Terminada a guerra, seguiu os fluxos migratórios afro-americanos rumo ao norte industrial e desembarcou em Chicago , cidade que já fervia com a eletrificação do blues. Foi lá que Gray encontrou terreno fértil. Tocou com uma constelação de nomes que moldaram o gênero: Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Jimmy Rogers, Little Walter, Hubert Sumlin, Jimmy Reed, El...

Elles Bailey: voz rouca, estradas e canções

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Elles Bailey: voz rouca, estradas e canções Ela canta como quem abre uma janela para o próprio coração. Elles Bailey sempre esteve menos preocupada com rótulos e mais interessada em encontrar a pulsação verdadeira de cada música. Sua voz — rouca, quente, humana — carrega o tipo de intensidade que apenas artistas profundamente conectadas ao blues conseguem transmitir. A construção de uma artista Nascida no Reino Unido, Bailey cresceu mergulhada no blues, no soul e na música de raiz norte-americana. Sua trajetória começou em apresentações menores, lugares onde se aprende que palco é encontro — não performance vazia. Ali, ela moldou seu estilo, combinando energia de estrada, poesia do cotidiano e um domínio vocal que ganhou força ao longo dos anos. Seu timbre torna tudo pessoal . Mesmo quando canta histórias que não são suas, Elles transforma cada verso em experiência, dando ao público a sensação de proximidade. Isso explica por que se tornou um dos nomes mais queridos do blues c...

Mississippi Sheiks: a elegância rústica do blues que atravessou gerações

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Mississippi Sheiks: a elegância rústica do blues que atravessou gerações Há histórias no blues que parecem feitas de madeira antiga, riscadas por cordas gastas e pelo pó do Delta. Entre elas, poucas brilham com a intensidade dos Mississippi Sheiks , uma banda que soube transformar tradição familiar, talento instrumental e poesia crua em um dos legados mais duradouros do country blues. Antes de serem lenda, foram gente do campo — e talvez seja exatamente aí que reside a força que atravessa décadas. Raízes no Delta e a família Chatmon No início dos anos 1930, quando as estradas de terra ainda eram atravessadas por carroças e a Grande Depressão engolia o país, surgiu no Mississippi uma formação rara: músicos que uniam harmonia refinada e rusticidade popular. O núcleo dos Mississippi Sheiks era formado pelos irmãos da família Chatmon , herdeiros diretos de Henderson Chatmon, um patriarca conhecido por ensinar música a todos os filhos. Entre os nomes mais constantes na formação es...

Lester Davenport: A vida e o rugido do “Mad Dog"

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Lester Davenport: A vida e o rugido do “Mad Dog” Lester Mad Dog Davenport foi um dos grandes gaitistas do Chicago blues, conhecido por sua presença visceral, estilo marcante e capacidade de transformar cada nota em emoção crua. Embora não tenha alcançado fama massiva em vida, seu impacto no cenário do blues elétrico é profundo e reverenciado por quem conhece de verdade o gênero. Infância e primeiros passos Lester Davenport nasceu em 16 de janeiro de 1932 , em Tchula, Mississippi , uma cidade pequena no coração do Delta. A música fazia parte da rotina familiar e comunitária, e foi na adolescência que ele se aproximou da gaita, instrumento que viria a dominar com personalidade e força únicas. Aos 14 anos, em busca de novas oportunidades e já atraído pelas possibilidades musicais da metrópole, mudou-se para Chicago no início da década de 1950, justamente quando a cidade se tornava o centro do blues urbano moderno. A imersão no Chicago blues Ao chegar em Chicago, Davenport ...

Billy Boy Arnold: um gaitista emocionalmente direto

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Billy Boy Arnold: um gaitista emocionalmente direto Billy Boy Arnold  é um dos nomes fundamentais do blues de Chicago e do blues elétrico que moldou o rock moderno. Sua trajetória — desde as ruas de Chicago até palcos internacionais — é uma narrativa de talento bruto, encontros decisivos e uma obra que continua a influenciar músicos de várias gerações. Infância e aprendizado ao lado de um mestre Arnold nasceu em 1935 em Chicago, Illinois, em meio a um ambiente marcado pela música e pela migração afro-americana que trazia o Delta para o Norte industrial dos Estados Unidos. Foi justamente nesse cenário efervescente que ele conheceu Sonny Boy Williamson I , seu vizinho e mentor. Williamson, já um artista respeitado no circuito do blues, tornou-se uma figura formativa para Arnold. Aprender com Sonny Boy não significava apenas dominar técnicas de gaita — era a absorção de uma filosofia musical. Williamson lhe mostrou como a gaita pode cantar, lamentar e desafiar, e foi nessa e...