Paul Delay: talento, queda e redenção no blues de Portland
Paul Delay: talento, queda e redenção no blues de Portland
Paul Delay foi um dos maiores gaitistas do blues norte-americano fora do eixo Chicago–Delta. Dono de um fraseado elétrico, agressivo e profundamente urbano, ele transformou Portland, no Oregon, em um ponto luminoso do mapa do blues contemporâneo. Sua história, porém, é marcada por contrastes: genialidade musical, dependência química, prisão, silêncio forçado — e, depois, um retorno honesto e ferido à música.
Raízes e formação de um gaitista singular
Nascido em 1952, Paul Delay cresceu ouvindo blues elétrico, soul e rock, absorvendo referências que iam de Little Walter a Junior Wells, mas sempre com um sotaque próprio. Seu jeito de tocar gaita era explosivo, moderno e sem reverência excessiva ao passado. Delay não queria imitar; queria confrontar.
Nos anos 1980, já estabelecido em Portland, ele começou a se destacar como músico de bar, estúdio e palco, chamando atenção pela intensidade das apresentações e pela capacidade de liderar uma banda com autoridade sonora e carisma.
A Paul Delay Band e o reconhecimento nacional
A formação da Paul Delay Band consolidou seu nome no circuito do blues moderno. A banda combinava blues elétrico, boogie, funk e rock, criando um som direto, dançante e nervoso. Delay não era apenas o gaitista: era compositor, cantor e maestro do caos controlado no palco.
Durante os anos 1990, a Paul Delay Band lançou álbuns bem recebidos pela crítica e passou a circular por festivais importantes. Delay chegou a ser indicado a prêmios relevantes do blues, e muitos o apontavam como um dos herdeiros naturais da gaita elétrica no pós-Chicago blues.
Dependência química e a queda abrupta
No auge da carreira, Paul Delay enfrentava uma batalha silenciosa. A dependência de drogas passou a dominar sua vida pessoal e profissional, afetando relações, compromissos e sua própria saúde. O que antes era energia criativa começou a se transformar em autossabotagem.
Em 2007, a situação atingiu o ponto mais grave: Delay foi preso por envolvimento com drogas. A prisão interrompeu brutalmente sua carreira e o afastou dos palcos, dos estúdios e da cena que ele ajudou a construir. Para muitos, aquele parecia ser o fim definitivo.
Silêncio, reflexão e a No Delay Band
Após cumprir pena, Paul Delay voltou a Portland em um estado físico e emocional fragilizado. Mas voltou com algo novo: lucidez sobre seus limites e sobre o preço que havia pago. Foi nesse contexto que surgiu a No Delay Band com a veterana bluesman de Portland, Linda Hornbuckle, como vocalista principal no lugar de deLay .
O nome não era apenas uma ironia. Era um manifesto. Sem atrasos, sem excessos, sem fuga. Musicalmente, a No Delay Band mantinha a força do blues elétrico, mas com um tom mais contido, reflexivo e maduro. Após sair da prisão, DeLay (agora limpo e sóbrio) voltou à banda e gravou uma série de álbuns aclamados pela crítica, tocava menos para impressionar e mais para dizer algo.
Esse período revelou um artista diferente: ainda intenso, mas consciente. Um bluesman marcado pela própria história, transformando dor, culpa e sobrevivência em música.
Últimos anos e morte
Paul Delay continuou ativo até o fim da vida, mesmo com a saúde debilitada. Em 2016, aos 64 anos, ele faleceu em decorrência de leucemia após um exaustivo período de tratamento.
Sua morte foi sentida profundamente pela cena de Portland e pelo blues contemporâneo. Delay deixou um legado que vai além da técnica: deixou o exemplo de um artista que viveu intensamente, caiu publicamente e teve coragem de voltar.
Legado no blues moderno
Paul Delay é lembrado como um dos grandes inovadores da gaita blues fora dos centros tradicionais. Sua obra influenciou músicos da costa oeste e ajudou a provar que o blues não é um museu — é um organismo vivo, urbano e imperfeito.
Entre a Paul Delay Band e a No Delay Band, fica registrada uma trajetória humana, dura e verdadeira. O blues, afinal, sempre foi isso: música feita por quem carrega cicatrizes e decide transformá-las em som.


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