Cash McCall: o elo discreto entre soul, funk e blues
Cash McCall: o elo discreto entre soul, funk e blues
Quando a história do blues elétrico se encontra com as raízes do soul e do gospel, raramente ela é contada com a profundidade da voz e da guitarra de Cash McCall. Nascido Maurice Dollison Jr. em 28 de janeiro de 1941, no Missouri, McCall construiu uma carreira que atravessou décadas, selando sua reputação como um artista versátil e autêntico – um verdadeiro viajante da música americana.
Desde o início na música religiosa em grupos gospel de Chicago até suas gravações como músico de estúdio na lendária Chess Records, McCall deixou sua marca ao tocar com grandes nomes e ao mesmo tempo trilhar um caminho próprio. Sua jornada atravessa os campos do soul, R&B e, especialmente, do blues, sempre com sensibilidade e energia.
O som além das fronteiras
Ao longo dos anos 1970, McCall não se confinou a um único estilo. Lançamentos como Omega Man mostram um músico que incorpora elementos de funk e soul ao seu blues de base. Essa capacidade de transitar entre gêneros é parte do que torna sua obra tão rica e ainda tão influente para músicos e ouvintes que buscam emoção aliada à técnica.
Destaques e colaborações — Ao longo de sua trajetória, Cash McCall construiu um currículo que impressiona não pelo excesso de holofotes, mas pela solidez das parcerias. Atuou como guitarrista, compositor e músico de estúdio na histórica Chess Records, colaborando com nomes fundamentais do blues e do soul, como Willie Dixon, Etta James e Little Milton. Sua participação no álbum Hidden Charms, de Willie Dixon — vencedor do Grammy de Blues Tradicional — reforça sua importância como músico de apoio e criador de atmosferas. McCall sempre foi esse elo discreto entre gerações: um artista que sabia quando conduzir e quando servir à canção, deixando sua marca sem nunca apagar a voz coletiva do blues.
“The Vintage Room”: blues em pleno vigor
De todos os momentos da discografia de McCall, The Vintage Room brilha especialmente. Lançado em 2007 sob o nome The Blues Experience with Cash McCall, o álbum é uma celebração do blues tradicional com um pé nas influências que McCall absorveu ao longo de sua vida. Produzido no selo Dixon Landing Music, o registro reúne McCall com outros músicos que compartilham do respeito pelas raízes do gênero, criando um som vivo, orgânico e cheio de alma.
Aqui, McCall explora tanto clássicos quanto composições próprias, puxando do repertório elementos que dialogam com a tradição do blues sem perder a modernidade que sua experiência aporta. É um disco que soa tão íntimo quanto uma conversa no porão de uma antiga casa do sul dos Estados Unidos, onde cada acorde parece carregado de história.
O legado
Mais do que apenas inserir McCall no panteão dos grandes nomes do blues, The Vintage Room mostra um artista que continua relevante mesmo em momentos tardios de sua carreira. A maneira como ele conduz a guitarra, como sua voz rasga o silêncio e como as músicas se entrelaçam com sentimentos universais — amor, saudade, luta, celebração — é um lembrete do que torna o blues tão essencial.
Cash McCall partiu em 20 de abril de 2019, mas sua música permanece viva em cada nota de seus álbuns, especialmente naquele em que ele parece encontrar, enfim, uma sala onde o tempo para e as histórias podem ser ouvidas com atenção e respeito: The Vintage Room.

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