Casey Bill Weldon: música, inovação e silêncio

Casey Bill Weldon: música, inovação e silêncio



Casey Bill Weldon ocupa um lugar singular na história do blues pré-guerra. Guitarrista, cantor e compositor, ele ajudou a redefinir o papel da slide guitar no blues urbano dos anos 1930, deixando um legado profundo mesmo tendo vivido grande parte da vida à margem dos registros oficiais. Sua trajetória é feita de música, inovação e silêncio.

Origens envoltas em sombra

Nascido como William “Casey Bill” Weldon — identificado por pesquisas posteriores também como Nathan Hammond —, sua data e local de nascimento permanecem incertos. Estima-se que tenha vindo ao mundo entre 1901 e 1909, possivelmente no Arkansas ou em regiões próximas do Kansas. O apelido “Casey Bill” remete à pronúncia de K.C., Kansas City, cidade que marcou seus primeiros passos no circuito musical.

Durante décadas, Weldon foi confundido com outro músico de nome semelhante, o que contribuiu para o apagamento de sua identidade artística. Apenas com o trabalho de historiadores do blues sua história começou a ser reconstruída, revelando um artista fundamental para a evolução do gênero.

A lâmina que cantava

Casey Bill Weldon ficou conhecido como o “Hawaiian Guitar Wizard”. Seu diferencial estava na forma de tocar: a guitarra National de aço apoiada no colo, explorando a técnica havaiana de slide. Esse estilo, ainda raro no blues da época, produzia um som metálico, cortante e ao mesmo tempo melódico, que ecoaria anos depois no Chicago Blues e até na steel guitar elétrica.

Weldon não apenas acompanhava: ele dialogava com o tempo da música, criava texturas e desenhava atmosferas que ampliavam o alcance emocional das canções. Sua guitarra parecia falar, deslizar e comentar a vida.

Carreira e gravações

Entre 1935 e 1938, Casey Bill Weldon viveu seu período mais produtivo. Gravou mais de 60 faixas para selos importantes da época, como Bluebird e Vocalion, tanto como artista solo quanto como músico de estúdio requisitado.

Ele colaborou com nomes centrais do blues urbano, incluindo Tampa Red, Big Bill Broonzy, Memphis Minnie, Peetie Wheatstraw e Bumble Bee Slim. Também integrou formações como os Hokum Boys e os Washboard Rhythm Kings, circulando entre o blues, o hokum e o ragtime.

Como compositor, Weldon demonstrava olhar atento para a vida cotidiana. Suas letras combinavam humor, crítica social e observação urbana, refletindo o espírito de uma América em transformação.



Canções que atravessaram gerações

Entre suas composições mais conhecidas estão:

Somebody Changed the Lock on My Door
W.P.A. Blues
Doctor’s Blues
Streamline Woman

Mas foi com We Gonna Move to the Outskirts of Town que Casey Bill Weldon entrou definitivamente para a história. A canção se tornou um standard do blues e do R&B, regravada ao longo das décadas por artistas como Ray Charles, B.B. King, Count Basie e Louis Jordan. Poucos compositores do blues pré-guerra alcançaram tamanho impacto.

O desaparecimento e a morte

Após 1938, Casey Bill Weldon desaparece dos estúdios e dos registros musicais. Há indícios de que tenha vivido em cidades como Detroit e Kansas City, sobrevivendo longe dos holofotes que ajudou a acender.

Ele morreu em 28 de setembro de 1972, em Kansas City, Missouri. Sua morte passou praticamente despercebida pelo grande público. Somente décadas depois, pesquisadores e entusiastas do blues reconheceriam a dimensão de sua obra. Em um gesto tardio, mas simbólico, uma lápide foi instalada em seu túmulo, devolvendo-lhe o nome à história.

Legado e permanência

Casey Bill Weldon foi um pioneiro. Seu trabalho ajudou a moldar a linguagem do blues urbano e abriu caminhos para novas possibilidades sonoras. Mesmo com uma carreira breve em registros fonográficos, sua influência se espalhou silenciosamente, como o som de uma lâmina deslizando sobre cordas de aço.

No blues, nem todos os gigantes viveram sob a luz. Alguns, como Weldon, continuam falando baixo, mas dizem coisas que atravessam o tempo.

© Todo Dia Um Blues 


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