Quique Gómez: o blues que cruza oceanos e encontra suas raízes em Chicago

Quique Gómez: o blues que cruza oceanos e encontra suas raízes em Chicago


Foto: Lola Reinaerts

Entre Madri e Chicago, entre clubes pequenos e grandes palcos internacionais, Quique Gómez construiu uma trajetória que revela mais do que técnica — revela pertencimento. O gaitista e cantor espanhol transformou sua relação com o blues em uma jornada contínua de aprendizado, colaboração e estrada, aproximando-se da essência do gênero ao vivê-lo diretamente em seus territórios mais simbólicos.

Dos palcos espanhóis ao circuito internacional

Quique começou a tocar gaita aos 18 anos, dando início a uma jornada que rapidamente ganharia corpo. Apenas dois anos depois, formou sua primeira banda, Juan Bourbon, Juan Scotch & Juan Beer, com a qual percorreu os palcos espanhóis durante mais de uma década, enquanto conciliava estudos e a gestão de um pequeno clube.

Foi nesse período que consolidou sua identidade musical: um blues profundamente enraizado na tradição, mas com uma sensibilidade moderna, marcada por nuances de swing e rhythm & blues. A virada internacional veio em 2008, quando viajou a Chicago e passou a conviver com nomes fundamentais do gênero, iniciando uma carreira que atravessaria continentes.

Desde então, Quique tem dividido o palco com artistas como John Primer, Eddie C. Campbell, Jimmy Burns e Tail Dragger, ampliando sua linguagem e consolidando seu nome como um dos principais representantes do blues europeu contemporâneo.

Quique Gómez & His Vipers e a estrada como destino

Com sua banda regular, Quique Gómez & His Vipers, lançou o álbum “Dealin' With the Blues” em 2018, pela Sweet Records. O disco não apenas reafirmou sua identidade sonora, como também impulsionou uma extensa turnê que passou pela Europa, América do Sul, Estados Unidos e Japão — um roteiro que traduz sua vocação global.

Seu trabalho é marcado por uma combinação de técnica refinada na gaita e uma interpretação vocal que flerta com o universo dos crooners, característica que também o levou a atuar como cantor da Bob Sands Big Band, explorando o repertório clássico do swing.



Parcerias e conexões com o blues de Chicago

Em 2019, Quique reforçou ainda mais seus laços com o blues norte-americano ao lançar “2 Hombres Wanted”, gravado em Austin, Texas, ao lado do guitarrista de Chicago Johnny Burgin. O álbum evidencia o diálogo entre tradição e contemporaneidade, conectando a escola europeia à linhagem direta do Chicago blues.

Esse mesmo período marcou um encontro decisivo: sua aproximação com o guitarrista e produtor Kid Andersen, figura central da cena blues na Califórnia, que abriria caminho para um dos projetos mais significativos de sua carreira.

Cooking at Greaseland: um encontro histórico

O capítulo mais emblemático dessa trajetória ganha forma em “Cooking at Greaseland”, gravado no lendário Greaseland Studios, em San Jose, Califórnia. O álbum reúne Quique Gómez ao lado do guitarrista Little Charlie Baty, com produção e participação de Kid Andersen e seção rítmica comandada por Alexander Pettersen.

Mais do que um registro de estúdio, o disco carrega um peso histórico: foi a última gravação de Little Charlie Baty antes de seu falecimento. Conhecido por seu trabalho com os Nightcats e por sua habilidade em fundir blues, swing e jazz, Baty encontra em Quique um parceiro à altura — alguém capaz de dialogar com sofisticação e respeito com essa tradição.

O resultado é um álbum que soa como um encontro de gerações: de um lado, a herança viva do blues norte-americano; do outro, a maturidade de um artista europeu que não apenas aprendeu o idioma, mas o incorporou com autenticidade.

Um bluesman entre continentes

Com apresentações em cinco continentes, colaborações com nomes históricos e uma discografia sólida, Quique Gómez se firmou como um elo entre diferentes geografias do blues. Sua música atravessa fronteiras sem perder o sotaque — um blues que nasce em Madri, amadurece em Chicago e ecoa pelo mundo.

“Cooking at Greaseland” permanece como um marco não apenas em sua carreira, mas também como um testemunho final da genialidade de Little Charlie Baty — um encontro raro, registrado no tempo certo, antes que o silêncio se impusesse.


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