Steve Cropper: "Watching The Tide", o ápice criativo de uma lenda da guitarra
Steve Cropper: "Watching The Tide", o ápice criativo de uma lenda da guitarra
Steve Cropper foi um daqueles raros músicos cuja influência ultrapassa o som que produzia. Nascido em 21 de outubro de 1941, no Missouri, e criado no Tennessee, ele cresceu cercado por uma paisagem sonora onde o gospel, o country e o rhythm & blues se misturavam naturalmente. Foi nesse terreno fértil que desenvolveu uma das linguagens mais econômicas — e ao mesmo tempo mais expressivas — da guitarra elétrica.
Sua morte, em dezembro de 2025, encerrou uma trajetória de mais de seis décadas dedicadas à música, mas seu legado permanece entranhado nos fundamentos da música americana moderna. Poucos artistas conseguiram ser tão decisivos nos bastidores quanto Cropper, que fez da simplicidade um manifesto estético.
Nos anos 1960, ele se tornou peça-chave da lendária Stax Records, em Memphis. Ali, ao lado de músicos como Booker T. Jones, Donald “Duck” Dunn e Al Jackson Jr., formou o Booker T. & The MG’s, banda residente do selo e responsável por definir a sonoridade crua, direta e profundamente humana da soul sulista.
Seu estilo de guitarra — limpo, preciso e profundamente rítmico — pode ser ouvido em gravações que ajudaram a moldar a história da música popular. Cropper foi coautor de clássicos como “(Sittin’ On) The Dock of the Bay”, eternizada por Otis Redding, e colaborador fundamental em sessões com artistas como Sam & Dave, Wilson Pickett e Eddie Floyd.
Mais do que guitarrista, Cropper era um arquiteto do groove. Seu talento como produtor e arranjador ajudou a transformar ideias em canções atemporais. Ele entendia o espaço entre as notas — e fazia dele uma assinatura.
Mesmo fora da Stax, sua carreira seguiu pulsante. Nos anos 1980, ganhou nova projeção com os Blues Brothers, ao lado de Dan Aykroyd e John Belushi, levando sua guitarra para uma nova geração. Nas décadas seguintes, manteve-se ativo em estúdio e nos palcos, sempre fiel à sua linguagem.
Seu último álbum em vida, “Friendlytown” (2024), foi indicado ao Grammy e reafirmou sua relevância artística em plena maturidade. Era a prova de que Steve Cropper nunca foi apenas um nome do passado — ele continuava dialogando com o presente.
Watching The Tide: o último capítulo
“Watching The Tide”, com lançamento previsto para 28 de agosto, chega como um testamento artístico. Trata-se de um álbum póstumo que carrega não apenas as últimas gravações de estúdio de Steve Cropper, mas também a reverência de músicos que cresceram sob sua influência.
O disco reúne um elenco impressionante, transformando-se em uma espécie de despedida coletiva. Em “Ticket First”, o primeiro single já disponível, Cropper divide espaço com Eric Clapton, em um encontro que soa como uma conversa entre gerações da guitarra.
A balada “My Angels Are Calling” traz participações de Brian May e Billy F. Gibbons, criando uma atmosfera emotiva que ecoa como um adeus. Já Ronnie Wood adiciona sua slide guitar em “Until Now”, ampliando a paleta sonora do álbum sem trair sua essência.
Entre os nomes que apontam para o futuro, Ana Grosh se destaca como uma presença vital. Sua voz aparece em diversas faixas, trazendo frescor e criando um contraste delicado com a sobriedade instrumental de Cropper.
Musicalmente, o álbum mantém a elegância minimalista que sempre definiu Cropper. Não há excessos. Cada nota parece colocada com precisão cirúrgica, como se o silêncio ainda fosse parte da composição.
“Watching The Tide” não é apenas um disco — é uma despedida serena, construída com amigos, memória e respeito. Um último gesto de quem ajudou a escrever os alicerces da soul music, do rhythm & blues e do rock 'n' roll.
Faixas de Watching The Tide
1. Tandoori Chicken
2. Ticket First (feat. Eric Clapton)
3. My Angels Are Calling (feat. Brian May & Billy F. Gibbons)
4. Until Now (feat. Ronnie Wood)
5. Blood From A Stone
6. Here & Gone (feat. Ana Grosh)
7. It’s Gonna Get Worse
8. Down & Out
9. Stand Right Here (feat. Billy F. Gibbons & Ana Grosh)
10. Tipoff To The Ripoff
11. House Of Cards
12. Tandoori Chicken Part 2
Steve Cropper partiu, mas seu som permanece — discreto, firme e essencial. Como uma maré que nunca deixa de voltar.
© Todo Dia Um Blues


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