Brother Johnny: neste álbum Edgar Winter transforma memória em blues vivo

Brother Johnny: neste álbum Edgar Winter transforma memória em blues vivo



Os irmãos Winter: sangue, música e legado

Johnny Winter e Edgar Winter são dois capítulos inseparáveis da história do blues rock americano. Nascidos no Texas, ambos albinos e criados em um ambiente musical, trilharam caminhos distintos, mas sempre interligados. Johnny, o mais velho, tornou-se um dos maiores guitarristas do gênero, com seu estilo incendiário, marcado pelo slide e por uma entrega quase física ao instrumento. Edgar, multi-instrumentista versátil, navegou entre o blues, o rock e o jazz com naturalidade, construindo uma carreira sólida e autoral.

A relação entre os dois nunca foi apenas familiar, mas profundamente musical. Desde os palcos compartilhados até a influência mútua, Edgar sempre orbitou a gravidade criativa de Johnny — e, ao mesmo tempo, expandiu esse universo. A morte de Johnny, em 2014, na Suíça, apenas dois dias após se apresentar em um festival na França, encerrou uma trajetória monumental, mas deixou ecos que ainda reverberam.

Um tributo que pulsa como um show ao vivo

Lançado em 2022 pela Quarto Valley Records, Brother Johnny não é apenas um álbum tributo — é uma reconstrução emocional e sonora da obra de Johnny Winter. Edgar não opta por uma reverência silenciosa; ao contrário, ele convoca um verdadeiro exército de guitarristas e músicos para reacender o fogo do irmão.

O disco reúne nomes como Joe Bonamassa, Doyle Bramhall II, Robben Ford, Billy Gibbons, Warren Haynes, Keb’ Mo’, Kenny Wayne Shepherd, Ringo Starr, Joe Walsh, Derek Trucks e Taylor Hawkins, entre muitos outros. Não se trata de participações decorativas, mas de interpretações vivas, carregadas de personalidade

Com 17 faixas — sendo 15 releituras e duas composições inéditas — o álbum percorre diferentes fases da carreira de Johnny, respeitando sua essência, mas permitindo novas texturas e dinâmicas. 



Guitarras em combustão e emoção à flor da pele

A abertura com “Mean Town Blues” já estabelece o tom: Joe Bonamassa despeja um slide agressivo, enquanto Edgar assume os vocais com energia surpreendente. É blues rock no limite da saturação, como Johnny gostava.

Em “Johnny B. Goode”, a clássica de Chuck Berry ganha um tratamento vibrante, com Joe Walsh e companhia transformando o tema em uma celebração elétrica. Já “Highway 61 Revisited” mantém o espírito dylaniano, mas com uma musculatura sonora mais robusta, impulsionada por guitarras afiadas.

Entre os momentos mais íntimos, “Lone Star Blues” — uma das inéditas — funciona como o coração do álbum. Ao lado de Keb’ Mo’, Edgar cria uma atmosfera introspectiva, quase confessional. É aqui que o tributo deixa de ser coletivo e se torna profundamente pessoal.

O encerramento com “End of the Line” traz um peso emocional inevitável. Piano, arranjos delicados e uma sensação de despedida que não soa definitiva, mas cíclica — como o próprio blues.

Um álbum sobre Johnny… e também sobre Edgar

Se por um lado Brother Johnny é uma homenagem ao legado de um dos maiores guitarristas da história, por outro ele revela algo igualmente poderoso: a identidade artística de Edgar Winter. Ao conduzir o projeto, ele não se coloca à sombra do irmão, mas como guardião e intérprete desse legado.

O álbum alcançou o topo das paradas de blues e ainda rendeu o Grammy de Melhor Álbum de Blues Contemporâneo, consolidando sua relevância não apenas como tributo, mas como obra viva dentro do gênero. 

No fim, o que se ouve aqui não é apenas uma coleção de músicas — é um reencontro. Um irmão chamando o outro de volta através do som, com guitarras que ainda queimam e memórias que se recusam a desaparecer.

Ouça o álbum


 

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