Dave Alexander: o pianista que manteve vivo o boogie-woogie da Costa Oeste
Dave Alexander: o pianista que manteve vivo o boogie-woogie da Costa Oeste
No vasto território do blues americano, alguns artistas constroem carreiras ruidosas e amplamente celebradas. Outros percorrem caminhos mais discretos, mas deixam marcas profundas na tradição do gênero. Dave Alexander, nascido David Alexander Elam, pertence a essa segunda linhagem: um pianista extraordinário, dono de um estilo vigoroso que manteve viva a tradição do boogie-woogie e do piano blues da Costa Oeste.
Ao longo de décadas, Alexander também se apresentou sob diferentes nomes — Omar Sharriff, Omar Shariff, Omar Hakim Khayam e Omar the Magnificent — refletindo as transformações pessoais e espirituais que atravessaram sua vida. Mas, independentemente do nome no cartaz, seu piano sempre contou a mesma história: a do blues profundo, visceral e carregado de memória.
Das igrejas do Texas ao piano blues
Dave Alexander nasceu em 10 de março de 1938, em Shreveport, Louisiana, mas cresceu na cidade de Marshall, no Texas, uma região historicamente associada às origens do boogie-woogie. A música entrou cedo em sua vida. Seu pai tocava piano e sua mãe incentivava o jovem David a participar das atividades musicais da igreja.
Foi nesse ambiente religioso que ele teve seus primeiros contatos com o piano, desenvolvendo uma técnica autodidata que misturava gospel, blues e jazz. Essa combinação se tornaria uma das marcas registradas de sua carreira.
Ainda jovem, em 1955, Alexander ingressou na Marinha dos Estados Unidos. Pouco tempo depois, em 1957, mudou-se para Oakland, Califórnia, passando a integrar a efervescente cena musical da região da Baía de San Francisco.
Um pianista respeitado na cena da Califórnia
Durante os anos 1960 e 1970, Dave Alexander tornou-se um dos pianistas mais respeitados do circuito blues da Costa Oeste. Seu estilo poderoso ao teclado, aliado a uma presença de palco intensa, transformava cada apresentação em uma experiência energética e quase teatral.
Ao longo desse período, ele tocou ou dividiu palcos com alguns dos grandes nomes do blues, entre eles Big Mama Thornton, Jimmy Witherspoon, Muddy Waters, Buddy Guy e Albert Collins. Essas parcerias ajudaram a consolidar sua reputação como um pianista capaz de unir tradição e personalidade.
Em 1968, Alexander participou da coletânea Oakland Blues, que documentava a cena musical da região. O registro marcou sua estreia fonográfica e ajudou a apresentar seu talento a um público mais amplo.
Festivais e reconhecimento
No início da década de 1970, Alexander passou a frequentar importantes festivais do circuito blues. Em 1970, apresentou-se no Ann Arbor Blues Festival, um dos eventos mais relevantes do gênero na época.
A partir de 1973, tornou-se presença recorrente no San Francisco Blues Festival, onde seu piano vigoroso conquistava plateias e críticos. Em 1976, também participou do lendário concerto de despedida da The Band, conhecido como The Last Waltz, realizado no Winterland Ballroom, em San Francisco.
Os discos da década de 1970
O início dos anos 1970 também marcou o momento em que Dave Alexander deixou suas gravações mais importantes. Entre elas estão os álbuns The Rattler (1972) e The Dirt on the Ground (1973), lançados pelo selo Arhoolie.
Nesses discos, o pianista apresentou composições que revelam seu domínio absoluto do boogie-woogie e do blues narrativo. Faixas como “Blue Tumbleweed”, “Cold Feelin” e “The Hoodoo Man” mostram um músico capaz de equilibrar virtuosismo técnico e emoção crua.
Uma nova identidade
Durante os anos 1970, Alexander passou por uma transformação espiritual e converteu-se ao islamismo. A partir desse período, começou a usar nomes artísticos como Omar the Magnificent, Omar Khayam e, posteriormente, Omar Shariff.
Sob essas novas identidades, ele continuou se apresentando e gravando ao longo das décadas seguintes, mantendo viva a tradição do piano blues mesmo longe dos grandes centros da indústria musical.
Últimos anos e legado
Nos anos 1990 e 2000, Dave Alexander continuou ativo como músico e também escreveu textos defendendo a importância cultural do blues e da tradição afro-americana. Ele passou grande parte desse período vivendo na região de Sacramento, na Califórnia.
Em 2011, retornou para Marshall, Texas, cidade onde havia crescido. Foi ali que faleceu em 8 de janeiro de 2012, aos 73 anos.
Seu legado permanece como o de um dos grandes pianistas do blues da Costa Oeste, um músico que preservou com autenticidade a energia do boogie-woogie e a transformou em uma linguagem própria.
The Raven: o reencontro com o passado
Entre os registros mais curiosos de sua discografia está o álbum The Raven, lançado nos anos 1990 quando Alexander já utilizava o nome artístico Omar Shariff.
O disco reúne gravações feitas em dois momentos diferentes de sua carreira. Parte do material vem de sessões registradas em 1972, período em que ele gravava os álbuns clássicos da Arhoolie. As demais faixas foram registradas em 1991, marcando seu retorno ao estúdio após quase duas décadas.
Essa combinação transforma The Raven em uma verdadeira ponte entre gerações do blues. O álbum revela que, mesmo após anos afastado das gravações, o piano de Dave Alexander continuava tão poderoso quanto no início de sua carreira.
Faixas como “The Raven”, “Fillmore Street Boogie” e “San Francisco Can Be Such a Lonely Town” capturam a essência de seu estilo: linhas de piano pulsantes, groove de boogie-woogie e um blues urbano profundamente enraizado na tradição da Costa Oeste.
Mais do que uma simples coletânea, The Raven funciona como um retrato da persistência artística de Dave Alexander — um músico que atravessou décadas mantendo viva a chama do piano blues.
Copyright © Todo Dia Um Blues

Comentários
Postar um comentário