Bukka White: o trovão do Delta - primo e inspiração de B.B. King
Bukka White: o trovão do Delta - primo e inspiração de B.B. King
Existem vozes que atravessam o tempo como trovões. Vozes que não se calam, mesmo quando a terra se cobre de silêncio. Bukka White foi uma dessas vozes — rude, verdadeira, intensa. Um homem que viveu o blues como quem carrega um fardo e o transforma em canção. Nascido no coração do Mississippi, em 12 de novembro de 1909, ele fez do aço de sua guitarra e da aspereza de sua voz uma confissão crua da alma sulista.
O sangue do Delta
Bukka White — batizado Booker T. Washington White — cresceu entre os campos de algodão e os trilhos que cortavam o Delta. Aprendeu cedo que o blues não era apenas música: era sobrevivência. Tocava violão, batia palmas, fazia soar o que tivesse à mão. O jovem Bukka vagava entre vilarejos, festas e bares, absorvendo os sons do campo e o ritmo dos trens. Foi primo de outro gigante, B.B. King, que mais tarde reconheceria nele uma das primeiras inspirações.
Quando se ouve Bukka White, sente-se o peso da terra, o ranger do metal, o calor do corpo em luta. Ele não tocava o violão: arrancava dele o som da própria vida. Seu estilo de slide guitar era feroz e percussivo, e seu canto, uma mistura de lamento e bravura. “Shake ’Em On Down”, “Parchman Farm Blues” e “Fixin’ to Die Blues” são retratos sonoros de um homem que viveu entre o céu e o inferno, entre o amor e a prisão.
Entre a liberdade e as grades
O blues sempre caminhou de mãos dadas com a dor, e Bukka sabia disso. No fim dos anos 1930, ele foi preso após um conflito que terminou com um homem ferido. Acabou na Parchman Farm, uma penitenciária rural do Mississippi, símbolo do sofrimento de tantos homens negros no sul dos Estados Unidos. Mas mesmo ali, Bukka não se calou. Com um violão de lata, começou a compor dentro das muralhas, e foi nesse ambiente brutal que nasceram algumas de suas canções mais poderosas.
O destino quis que suas gravações, feitas antes da prisão, chegassem até os ouvidos do lendário Alan Lomax, que registrou novas sessões de Bukka em 1939 para a Library of Congress. Essas gravações capturaram a essência de um homem que, mesmo em cativeiro, mantinha acesa a chama da expressão. Seu blues era testemunho e resistência.
O renascimento do bluesman
Após sua libertação, Bukka White desapareceu do mapa musical por anos. Viveu modestamente, trabalhando e tocando de maneira esporádica. Até que, nos anos 1960, em plena revival do blues, um jovem fã britânico chamado John Fahey escreveu-lhe uma carta, endereçada simplesmente a “Bukka White, Old Blues Singer, c/o General Delivery, Aberdeen, Mississippi”. Contra todas as probabilidades, a carta chegou — e com ela, o renascimento de uma lenda.
Reencontrado pelo público e pela crítica, Bukka voltou aos palcos com vigor surpreendente. Gravou álbuns marcantes como “Mississippi Blues” e “Big Daddy”, e sua energia bruta conquistou uma nova geração de ouvintes e músicos. Ele não suavizou seu som para agradar — manteve-se fiel ao espírito do Delta, àquele grito primal que vinha das entranhas da terra.
O trovão silencia
Bukka White faleceu em 26 de fevereiro de 1977, em Memphis, Tennessee, onde havia vivido seus últimos anos. Mas o trovão que ele lançou no ar nunca cessou. Sua música permanece viva nas cordas de cada guitarrista que aprendeu com o blues do Delta a respeitar a simplicidade e o peso da emoção.
Em cada faixa, há o eco de um homem que conheceu o inferno das prisões e a liberdade da canção. Um homem que, ao tocar, não pedia piedade — apenas ouvidos. Porque o blues de Bukka White não era apenas para ser escutado: era para ser sentido, como o calor que antecede a tempestade.
Legado e eternidade
Hoje, quando celebramos seu nascimento, é impossível não sentir a força ancestral de seu canto. Bukka White foi mais do que um músico — foi um cronista da vida negra americana, um trovador das margens, um guerreiro da fé e da fúria. Seu blues era verdade, e a verdade nunca morre.
Em tempos de ruído e pressa, ouvir Bukka é retornar à origem. É lembrar que o blues não nasceu para entreter, mas para curar. E que, enquanto houver dor, haverá canção. Enquanto houver memória, haverá Bukka White.
“I’m fixin’ to die, but I don’t worry — my soul is gonna live on.”
Assim vive Bukka White. Assim vive o blues.
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