The Brunning Sunflower Blues Band e o retrato cru do blues britânico dos anos 60
The Brunning Sunflower Blues Band e o retrato cru do blues britânico dos anos 60
No fim dos anos 1960, enquanto Londres fervilhava com guitarras saturadas e clubes lotados, o blues britânico vivia um de seus momentos mais criativos. Nesse cenário, a The Brunning Sunflower Blues Band surgiu como um coletivo de músicos profundamente conectados à tradição do blues, mas atentos à energia de uma nova geração que reinterpretava o gênero com identidade própria.
Origem e formação
A banda foi liderada pelo baixista Bob Brunning, figura importante do circuito musical londrino e conhecido por sua breve passagem pela formação inicial do Fleetwood Mac. Após deixar o grupo, Brunning concentrou esforços em projetos que mantivessem o blues em primeiro plano, e a Brunning Sunflower Blues Band tornou-se um dos mais interessantes deles.
O conjunto reuniu músicos ativos na cena britânica, entre eles o pianista Bob Hall, o vocalista Pete French e guitarristas que transitavam entre o blues e o nascente blues-rock. A combinação de piano destacado, seções rítmicas firmes e guitarras de forte influência do Chicago blues ajudou a moldar um som direto, dançante e profundamente enraizado na tradição afro-americana.
O Boom do Blues Britânico
Inserida no auge do chamado boom do blues britânico, a banda participou de um ecossistema musical que ajudou a redefinir o gênero na Europa. Era uma época em que músicos circulavam intensamente entre projetos, clubes e gravações, criando uma rede criativa que conectava nomes emergentes e artistas já estabelecidos.
Esse ambiente colaborativo explica a presença de convidados e parcerias que ampliaram o alcance do grupo. Entre os nomes ligados às gravações está o guitarrista Peter Green, cuja sensibilidade musical e ligação com o Fleetwood Mac reforçam o peso histórico das sessões registradas pela banda.
Estética e sonoridade
O repertório da Brunning Sunflower Blues Band transitava entre composições autorais e releituras, sempre com ênfase no groove e na espontaneidade. O piano boogie, as linhas de baixo pulsantes e os vocais carregados de soul criavam um som que dialogava tanto com o blues tradicional quanto com a vibração urbana da Londres da época.
Mais do que buscar inovação estética radical, o grupo parecia interessado em capturar o espírito do blues como música de encontro — música de palco, de improviso e de interação entre músicos.
Trackside Blues: um documento de época
Lançado em 1969, Trackside Blues representa o registro mais emblemático da banda. O álbum sintetiza o momento histórico em que o blues britânico ainda mantinha forte ligação com suas raízes, mas já apontava para caminhos mais amplos dentro do blues-rock.
Com cerca de quarenta minutos de duração e uma sequência de doze faixas, o disco apresenta uma atmosfera crua e espontânea. As performances soam próximas de uma sessão ao vivo, privilegiando a interação entre os músicos e a expressividade individual de cada instrumento.
A participação de Peter Green em parte das gravações adiciona uma camada extra de relevância histórica, conectando o álbum a um dos nomes mais influentes da guitarra blues europeia. O resultado é um trabalho que funciona tanto como registro artístico quanto como documento da cena londrina do período.
Mesmo sem grande repercussão comercial, o disco permanece como um retrato fiel de uma época em que o blues era reinventado noite após noite nos palcos britânicos. Trackside Blues não é apenas um álbum — é uma fotografia sonora do espírito coletivo que definiu o blues na Inglaterra no final dos anos 60.
Legado
Com o passar das décadas, a Brunning Sunflower Blues Band consolidou-se como um nome cult dentro do blues europeu. Seus registros seguem sendo redescobertos por colecionadores e pesquisadores, principalmente por documentarem a transição entre o blues tradicional e a linguagem que daria origem a boa parte do blues-rock dos anos seguintes.
Hoje, revisitar o grupo e especialmente Trackside Blues é mergulhar em um momento em que o blues ainda era, acima de tudo, uma música de comunidade — tocada com respeito às origens e com a liberdade criativa de quem sabia estar construindo algo novo.


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