Sam Myers: a alma do South Side Blues

Sam Myers: a alma do South Side Blues



Samuel Joseph Myers nasceu em 19 de fevereiro de 1936, em Laurel, Mississippi, e se tornou uma das figuras mais respeitadas do blues tradicional norte-americano. Cantor, gaitista, baterista e compositor, ele construiu uma trajetória que atravessa mais de cinco décadas, conectando o som rural do Delta às plateias contemporâneas. Myers faleceu em 17 de julho de 2006, em Dallas, Texas, deixando uma obra marcada pela autenticidade e pelo compromisso com a tradição.

Infância, formação e o chamado do blues

Crescido no sul segregado dos Estados Unidos, Myers desenvolveu interesse pela música ainda jovem, estudando trompete e bateria. Seu talento lhe rendeu uma bolsa na American Conservatory School of Music, em Chicago, onde mergulhou na efervescente cena blues da cidade, tocando em clubes e convivendo com grandes nomes do gênero. Ainda nos anos 1950, iniciou a carreira profissional como baterista de Elmore James, experiência que moldou seu estilo e o inseriu definitivamente no circuito do blues.

Em 1956, compôs e gravou Sleeping in the Ground, canção que se tornaria um clássico reinterpretado por diversos artistas ao longo das décadas. Esse início como compositor já revelava sua habilidade em transformar experiências pessoais em narrativas musicais profundas e universais.

Estradas, clubes e o circuito do sul

Entre os anos 1960 e meados dos anos 1980, Sam Myers percorreu intensamente o chamado Chitlin’ Circuit, rede de clubes que sustentou a música afro-americana em tempos de segregação. Nesse período, liderou bandas próprias, acompanhou artistas e consolidou sua reputação como cantor de timbre poderoso e gaitista de fraseado expressivo.

Seu trabalho como sideman e líder de banda o transformou em um músico requisitado, participando de gravações e turnês ao lado de nomes históricos do blues. Essa vivência nas estradas seria fundamental para a maturidade artística que viria a seguir.

O encontro com Anson Funderburgh & The Rockets

O grande ponto de virada ocorreu em 1986, quando Myers se juntou à banda Anson Funderburgh & The Rockets como vocalista principal e gaitista. A parceria, que duraria cerca de duas décadas, revitalizou sua carreira e o levou a palcos internacionais, consolidando o grupo como um dos mais respeitados do blues contemporâneo.

Com a banda, Myers conquistou reconhecimento amplo e participou de discos que ajudaram a redefinir o blues tradicional nos anos 1980 e 1990. O conjunto acumulou diversos W.C. Handy Awards, reforçando a relevância artística e histórica da colaboração.



Estilo e legado

Sam Myers possuía um estilo profundamente enraizado no blues do Mississippi, combinando a expressividade vocal com a gaita de sonoridade robusta. Sua música preservava a essência do gênero enquanto dialogava com novas audiências, mantendo viva a tradição sem perder frescor.

Ao longo da carreira, também foi reconhecido como embaixador do blues em seu estado natal e homenageado por instituições culturais, evidenciando o respeito conquistado dentro e fora dos palcos. Sua autobiografia, publicada pouco antes de sua morte, reforça a dimensão histórica de sua trajetória.

Coming From The Old School: o blues em estado puro

Lançado em 2004, Coming From The Old School é frequentemente apontado como o trabalho definitivo de Sam Myers em carreira solo. O álbum sintetiza sua experiência de décadas, apresentando um repertório que valoriza a tradição, a narrativa e a expressividade vocal.

O disco foi indicado a prêmios importantes do blues e é considerado um testemunho tardio, porém vibrante, de um artista que viveu intensamente cada fase da música que ajudou a preservar. Aqui, Myers soa confiante e maduro, celebrando o passado enquanto reafirma a vitalidade do gênero.

Mais do que um registro, o álbum funciona como um manifesto artístico: um lembrete de que o blues é memória viva, transmitida de geração em geração por intérpretes que carregam histórias em cada nota.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Top 10 - Os Blues Mais Regravados de Todos os Tempos

Little Walter: O Gênio da Gaita que Mudou o Blues para Sempre

Ain’t Done With The Blues: Buddy Guy aos 89 Anos Ainda Toca com o Coração em Chamas