Monkey Joe: o piano errante de Jesse Coleman
Monkey Joe: o piano errante de Jesse Coleman
Jesse “Monkey Joe” Coleman (26 de janeiro de 1906 – 16 de novembro de 1967) foi um daqueles músicos que ajudaram a construir o blues a partir das margens, longe do estrelato, mas profundamente inserido na engrenagem criativa do gênero. Pianista e cantor de country blues, Coleman transitou entre o sul rural e a Chicago urbana, deixando sua marca em gravações, sessões de estúdio e noites intermináveis em juke joints.
Das raízes no sul ao apelido que virou identidade
Nascido no Tennessee, Jesse Coleman cresceu em um ambiente onde o blues era linguagem cotidiana. Ainda jovem, passou a tocar piano e cantar em bares, festas e pequenos salões no Mississippi, especialmente na região de Jackson. Foi nesse circuito informal que surgiu o apelido “Monkey Joe”, adotado ainda na década de 1930 e incorporado definitivamente à sua persona artística.
Seu estilo refletia a transição entre o blues rural e o urbano, combinando estruturas simples, humor sutil e um piano marcado pelo ritmo do boogie-woogie, mas sem abandonar a crueza emocional típica do country blues.
Chicago, estúdios e o blues como trabalho coletivo
Em meados dos anos 1930, Monkey Joe migrou para Chicago, acompanhando o fluxo de músicos do sul em busca de oportunidades. A cidade vivia um momento de efervescência criativa, e Coleman rapidamente se integrou ao circuito profissional.
Em 1935, gravou ao lado do pianista Little Brother Montgomery para o selo Bluebird Records. Pouco depois, tornou-se presença constante em sessões organizadas por Lester Melrose, um dos principais produtores de blues da época.
Monkey Joe era, acima de tudo, um músico de conjunto. Atuou como pianista de apoio e cantor em gravações de nomes fundamentais do blues, como Big Bill Broonzy, Charlie McCoy, Buster Bennett e Fred Williams. Em muitas dessas sessões, seu nome sequer aparecia nos créditos, prática comum no mercado fonográfico do período.
Identidades múltiplas e gravações discretas
Para contornar contratos e atender às demandas das gravadoras, Jesse Coleman também gravou sob outros pseudônimos, como Jack Newman e George Jefferson, especialmente quando acompanhava artistas como Lulu Scott. Essas identidades paralelas contribuíram para que sua obra ficasse fragmentada ao longo do tempo.
Seu repertório navegava entre o blues tradicional, o hokum e o boogie, com letras diretas, ritmo envolvente e um piano que funcionava tanto como base rítmica quanto como voz narrativa.
Últimos anos e o blues longe dos holofotes
Mesmo com a diminuição das oportunidades de gravação após os anos 1940, Monkey Joe permaneceu ativo na cena local de Chicago. Durante os anos 1960, período marcado pelo blues revival, ainda podia ser encontrado tocando em clubes e bares, sustentando uma tradição que começava a ser redescoberta por novos públicos.
Jesse “Monkey Joe” Coleman faleceu em 16 de novembro de 1967, em Chicago, deixando uma obra dispersa, mas fundamental para compreender o funcionamento interno do blues clássico.
Redescoberta e legado
A importância de Monkey Joe tornou-se mais clara com o trabalho de resgate realizado por selos especializados. Em 1996, a Document Records lançou uma coletânea em dois volumes reunindo suas gravações completas conhecidas, permitindo uma reavaliação crítica de sua contribuição.
Monkey Joe não foi um astro, mas foi um elo essencial. Seu piano sustentou vozes, seu ritmo empurrou canções adiante e sua presença ajudou a moldar o som do blues urbano em formação. Ele representa a imensa rede de músicos que fizeram o blues sobreviver — não pela fama, mas pela insistência.
No fim das contas, Jesse Coleman foi exatamente isso: um trabalhador do blues, cujo legado continua ecoando em cada acorde que carrega a memória do sul para dentro da cidade.

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