Eddie “Guitar” Burns: o blues de Detroit com raízes no Mississippi

Eddie “Guitar” Burns: o blues de Detroit com raízes no Mississippi



Eddie “Guitar” Burns não foi apenas um músico de blues. Foi um elo vivo entre o Delta do Mississippi e o blues urbano de Detroit, um artista que atravessou gerações sem jamais perder o sotaque da rua, do trabalho duro e da experiência real. Sua trajetória é a de quem carregou o blues como ofício, linguagem e sobrevivência.

Do Mississippi ao Norte industrial

Nascido em 8 de fevereiro de 1928, em Belzoni, Mississippi, Eddie Burns cresceu em meio a um ambiente musical popular e itinerante. Seu pai tocava em medicine shows, e foi ali, observando músicos e absorvendo sons, que Eddie começou a se formar. A harmônica foi seu primeiro instrumento, aprendida de forma autodidata, antes mesmo de ter uma guitarra em mãos.

Influenciado por nomes como Sonny Boy Williamson I e Big Bill Broonzy, Burns desenvolveu um estilo direto, cru e funcional — feito para contar histórias e mover corpos, não para exibir virtuosismo.

Em 1948, como tantos outros músicos do Sul, migrou para Detroit, atraído pelas oportunidades da indústria automobilística e pela efervescente cena musical da cidade. Durante o dia, trabalhava em empregos comuns; à noite, vivia o blues.

Detroit blues: eletricidade e identidade

Detroit não era Chicago, nem o Delta. Era uma cidade industrial, dura, barulhenta — e o blues precisou se adaptar. Eddie Burns ajudou a moldar essa sonoridade, incorporando guitarra elétrica, ritmo mais urbano e uma abordagem quase conversada no canto.

Na cidade, aproximou-se de músicos fundamentais, entre eles John Lee Hooker, com quem tocou e gravou. Burns se tornou figura constante nos clubes locais, respeitado tanto pela técnica quanto pela postura profissional.

Durante as décadas de 1950 e 1960, lançou singles por selos como Palda, Checker, Chess e Harvey Records. Eram gravações diretas, sem verniz, refletindo o cotidiano de trabalhadores negros no Norte industrial.

Canções que atravessaram gerações

Entre suas composições mais conhecidas está “Orange Driver”, uma canção que ganhou nova vida quando foi regravada pela J. Geils Band nos anos 1970. O fato de uma banda de rock branca reinterpretar sua música evidencia a força e a universalidade de sua escrita.

Apesar disso, Burns nunca foi um artista de holofotes. Seu reconhecimento veio mais pelo respeito dos pares do que pelo mercado — algo comum a muitos grandes nomes do blues.

Álbuns, Europa e maturidade artística

Somente em 1972, já com mais de 40 anos, Eddie Burns lançou seu primeiro álbum completo, Bottle Up & Go. O disco apresentou ao público internacional um músico maduro, seguro e profundamente conectado às raízes do gênero.

Na mesma década, realizou turnês pela Europa e participou do Ann Arbor Blues and Jazz Festival, ampliando seu público e consolidando seu nome fora dos Estados Unidos.

Outros trabalhos importantes incluem Detroit Blackbottom, Detroit, Snake Eyes — gravado com seu irmão Jimmy Burns — e Second Degree Burns. Cada álbum reafirma sua versatilidade entre guitarra, harmônica e voz.

Reconhecimento tardio, legado permanente

O reconhecimento institucional veio com o tempo. Em 1994, Burns recebeu o Michigan Heritage Award, e em 1998, o Lifetime Achievement Award da Detroit Blues Society.

Sua última apresentação ocorreu em 2008, no Motor City Blues & Boogie Woogie Festival. Eddie “Guitar” Burns faleceu em 12 de dezembro de 2012, em Detroit, aos 84 anos.

Seu legado, porém, permanece vivo. Burns representa o blues como trabalho diário, como expressão de uma vida comum transformada em arte. Um músico que nunca precisou gritar para ser ouvido — bastava tocar.


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