Sam Chatmon: melodias antigas e estilo único

Sam Chatmon: melodias antigas e estilo único



Há artistas que atravessam o tempo com o brilho discreto dos que não precisam gritar para serem ouvidos. Sam Chatmon foi exatamente isso: uma voz calma, precisa e cheia de histórias, um guardião de melodias antigas que sobreviveram ao tempo graças à sua memória prodigiosa. Sua trajetória é um testemunho da força do blues rural do Mississippi e de como a música pode ser, acima de tudo, um arquivo vivo.

As raízes profundas do Mississippi

Sam Chatmon nasceu em 10 de janeiro, de 1897, em Bolton, Mississippi, no seio de uma família em que a música era tão natural quanto o ar. Os Chatmon formavam uma das linhagens mais profícuas do blues pré-guerra, com destaque para seus irmãos envolvidos no lendário grupo Mississippi Sheiks. Em casa, o som de violões, banjos e violinos se misturava às vozes que atravessavam o pátio de terra batida. Era ali, naquele universo rústico e musicalmente fértil, que Sam absorvia tudo — melodias, ritmos, histórias e a cadência do sul profundo.

Antes dos dez anos ele já tocava guitarra, banjo e violino. Seu repertório sempre foi amplo, mesclando blues, ragtime, old-time, minstrel e canções tradicionais. Sam era fruto de uma época em que a música era passada de ouvido, de geração para geração, como uma herança invisível.

O músico que preferia as varandas aos holofotes

Ao contrário de alguns de seus parentes, Sam não buscou imediatamente uma carreira fonográfica. Tocava em fazendas, casamentos, bailes, festas improvisadas e encontros íntimos. Seu talento era evidente, mas ele parecia mais confortável no fluxo natural da vida rural. Ainda assim, participou de algumas sessões com os Mississippi Sheiks nos anos 1920 e 1930, marcando presença em gravações que hoje são documentos essenciais da música de cordas do Mississippi.

Seu estilo sempre se destacou pelo dedilhado limpo e elegante e pela voz suave, quase falada, que conferia às canções um aspecto de narrativa. Ele não era apenas intérprete: era contador de histórias.

A redescoberta nos anos 1960

Como tantos bluesmen de sua geração, Sam caiu no esquecimento por décadas, trabalhando como agricultor e trabalhador rural para sustentar a família. Mas o movimento folk revival dos anos 1960 reacendeu o interesse pela música tradicional americana, e pesquisadores encontraram Sam vivendo em Hollandale, Mississippi. Ficaram impressionados com a vitalidade de sua música e a precisão com que se lembrava de temas antigos.

Logo, ele passou a se apresentar em festivais, universidades e clubes, sempre com o mesmo ar sereno e humor leve. Sua presença no palco parecia trazer consigo todo um século de histórias não contadas. Suas gravações desse período, muitas delas feitas para selos como Arhoolie, se tornaram registros essenciais do blues rural.



O estilo que capturou um mundo inteiro

Sam era um artista de essência acústica. Seu violão falava com uma cadência quase conversada, com linhas melódicas que lembravam o ragtime e o estilo das string bands. Seu canto, por sua vez, carregava humor, melancolia e malícia em doses equilibradas.

Ele transitava com naturalidade entre temas sérios, espirituais e canções mais brincalhonas, característica marcante em sua formação musical. E tudo isso com uma elegância que o tempo nunca conseguiu apagar.

Últimos anos e despedida

Sam continuou ativo até a década de 1980. Encantava plateias jovens que buscavam entender o blues em sua forma mais pura. Para muitos, ele era um sobrevivente de uma era quase mítica — um homem que tocou com músicos que antecederam a era do blues comercial e que guardava em si melodias que jamais foram escritas.

Ele morreu em 2 de fevereiro de 1983, em Hollandale. Sua partida representou mais do que o falecimento de um artista: foi o silêncio de uma das últimas vozes da tradição funda do Mississippi.

Legado

O legado de Sam Chatmon é imenso. Ele preservou estilos e repertórios que poderiam ter desaparecido. Seu trabalho permite que pesquisadores, músicos e ouvintes mergulhem em um tempo anterior ao registro comercial do blues, quando a música era um veículo de memória e sobrevivência.

Sam não foi apenas músico. Foi um cronista oral, um guardião de tradições e um artista que representou, como poucos, as raízes do blues.

Álbum em destaque: Hollandale Blues

Para conhecer melhor sua arte tardia, vale mergulhar no álbum Hollandale Blues, onde sua voz madura e seu violão elegante revelam a força e a delicadeza de um mestre que nunca apressou a própria música.


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