Little Smokey Smothers: o elo silencioso do blues de Chicago
Little Smokey Smothers: o elo silencioso do blues de Chicago
Little Smokey Smothers é um daqueles nomes que sustentam o blues por dentro, longe dos holofotes, mas profundamente gravados na história do gênero. Sua trajetória ajuda a entender como o blues de Chicago se formou, se expandiu e atravessou gerações sem perder a alma. Guitarrista de fraseado elegante, cantor contido e mentor respeitado, Smothers foi mais influência do que celebridade — e talvez exatamente por isso seja tão essencial.
Das raízes no Mississippi ao chamado de Chicago
Albert Abraham Smothers nasceu em 2 de janeiro de 1939, em Tchula, Mississippi, em uma região onde o blues não era entretenimento, mas parte da vida cotidiana. Cresceu cercado por música, seguindo os passos do irmão mais velho, Otis “Big Smokey” Smothers, também guitarrista. Ainda jovem, aprendeu a tocar guitarra absorvendo o blues rural, mas já com os ouvidos atentos às possibilidades que iam além do Delta.
Na virada dos anos 1950 para os 1960, como tantos outros músicos, Smothers migrou para Chicago. A cidade fervilhava: o blues ganhava eletricidade, volume e novas ambições. Foi nesse ambiente que Little Smokey encontrou seu lugar — não como um showman exuberante, mas como um músico sólido, confiável e profundamente respeitado.
Os palcos do South Side e o respeito dos mestres
Em Chicago, Smothers rapidamente se integrou à cena do South Side. Tocou com nomes fundamentais do blues urbano, como Magic Sam, Otis Rush, Lazy Bill Lucas e Arthur “Big Boy” Spires. Também participou de gravações associadas ao universo de Howlin’ Wolf, absorvendo a linguagem crua e intensa que definia o blues elétrico da época.
Sua guitarra chamava atenção pelo fraseado limpo, melódico e levemente jazzístico. Diferente do ataque agressivo de alguns contemporâneos, Smothers preferia construir suas ideias com paciência, explorando nuances e espaços. Era um estilo que dialogava tanto com B.B. King quanto com guitarristas de jazz, sem jamais abandonar o chão do blues.
Mentor de uma nova geração
Talvez o capítulo mais importante de sua carreira não esteja apenas nos discos, mas nas pessoas que ajudou a formar. Nos anos 1960, Smothers tornou-se mentor de jovens músicos brancos que buscavam compreender o blues de dentro. Entre eles, dois nomes se destacam: Paul Butterfield e Elvin Bishop.
Smothers ensinou repertório, postura e, sobretudo, respeito pela tradição. Mostrou que o blues não era apenas uma sequência de acordes, mas uma linguagem emocional, social e cultural. A influência que exerceu sobre Butterfield e Bishop ajudou a moldar a ponte entre o blues tradicional de Chicago e a explosão do blues-rock nos anos seguintes.
Silêncio, sobrevivência e retorno
Apesar do reconhecimento entre os pares, Little Smokey Smothers nunca teve uma carreira comercial contínua. Durante parte dos anos 1970, afastou-se dos palcos para trabalhar fora da música e sustentar a família. Esse silêncio, comum na vida de muitos bluesmen, não apagou sua relevância — apenas a tornou mais subterrânea.
Nos anos 1980 e 1990, Smothers voltou a gravar e se apresentar com mais regularidade. Seus discos como líder surgem nesse período, revelando um músico maduro, seguro e fiel à própria identidade. Cada gravação soa como um testemunho, não como uma tentativa de se reinventar.
That’s My Partner!: encontro, memória e celebração
Lançado em 2000 pela Alligator Records, That’s My Partner! é um álbum ao vivo que reúne Little Smokey Smothers e Elvin Bishop em um encontro carregado de história. Gravado ao vivo no clube Biscuits & Blues, em San Francisco, Califórnia, durante os dias 7 a 9 de janeiro de 2000, diante de um público atento, o disco captura mais do que músicas: registra uma relação.
O título resume tudo. Não é apenas um duo de guitarristas, mas o reencontro entre mestre e discípulo, agora em pé de igualdade. Smothers assume vocais e solos com naturalidade, enquanto Bishop responde com entusiasmo e reverência. O repertório transita por blues tradicionais, grooves descontraídos e momentos de pura interação, em que a música parece conversar sozinha.
That’s My Partner! tornou-se um dos registros mais importantes da fase final de Smothers, revelando sua força ao vivo, seu humor sutil e sua autoridade musical. É um disco que não busca brilho excessivo — prefere a verdade do palco.
Estilo, identidade e legado
Little Smokey Smothers nunca foi um virtuose exibicionista. Sua marca está na elegância do fraseado, no controle do timbre e na forma como sustenta uma canção sem pressa. Como cantor, mantinha um tom contido, quase conversado, que reforçava a sensação de intimidade.
Seu legado vive menos nas listas de “melhores de todos os tempos” e mais na formação silenciosa do blues moderno. Smothers representa a continuidade — o músico que aprendeu com os mais velhos, ensinou os mais novos e manteve o blues vivo entre gerações.
Os últimos anos e a despedida
Nos anos finais de vida, Smothers enfrentou sérios problemas de saúde, incluindo complicações decorrentes da diabetes, que limitaram suas atividades. Ainda assim, seu nome seguiu sendo lembrado com carinho e respeito por músicos e selos ligados ao blues.
Little Smokey Smothers faleceu em 20 de novembro de 2010, em Chicago, aos 71 anos. Sua morte passou longe das manchetes, mas deixou um vazio profundo entre aqueles que compreendem o blues como tradição viva.
Um nome que sustenta o blues
Little Smokey Smothers é a prova de que o blues não sobrevive apenas de lendas grandiosas. Ele se mantém graças a músicos como ele — que tocaram, ensinaram, acompanharam e seguraram a estrutura do gênero quando ninguém estava olhando. Seu som permanece como um fio invisível que liga o Delta ao blues urbano, o passado ao presente.
Ouvir Smothers é ouvir o blues falando baixo, mas dizendo muito.


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