Johnny Young: o bluesman que encontrou no bandolim uma voz própria
Johnny Young: o bluesman que encontrou no bandolim uma voz própria
Celebrar o nascimento de Johnny Young é revisitar uma das trajetórias mais singulares da história do blues. Em um universo dominado por guitarras, pianos e gaitas, Young escolheu o bandolim como extensão de sua alma, criando uma assinatura sonora rara, cortante e profundamente enraizada na tradição do Delta. Seu nome pode não ter alcançado o grande público, mas sua música ecoa com força entre os que escutam o blues como linguagem de sobrevivência.
Das margens do Mississippi ao chamado do blues
Johnny Young nasceu John Watson Young, em 1918, em Vicksburg, Mississippi. Criado em meio às canções rurais do Sul, cresceu ouvindo o blues como relato cotidiano — histórias de trabalho duro, amores perdidos e dignidade em tempos difíceis. Aprendeu violão ainda jovem, absorvendo a essência do Delta blues, com sua batida crua e direta, antes mesmo de imaginar que um dia se tornaria um personagem único na história do gênero.
Como tantos músicos de sua geração, Johnny Young seguiu o fluxo da Grande Migração, deixando o Sul rumo a Chicago no início dos anos 1940. A cidade fervilhava: o blues se eletrificava, ganhava volume, urgência e novas formas. Mas Young levou consigo algo diferente — um apego quase espiritual à tradição, que mais tarde se manifestaria de maneira inesperada.
Chicago blues e a escolha do bandolim
Em Chicago, Johnny Young passou a circular pelos clubes, bares e sessões informais, convivendo com nomes centrais da cena local. Foi nesse ambiente que sua identidade artística se consolidou. Ao adotar o bandolim como instrumento principal, Young não buscava exotismo. Seu toque era firme, rítmico e emocional, fazendo o instrumento soar tão blues quanto qualquer guitarra elétrica.
Essa escolha o colocou à margem do mercado, mas no centro da autenticidade. Seu estilo dialogava com o blues rural, mesmo em meio à paisagem urbana. Johnny Young tocava o blues como quem conta uma história sem elevar a voz, confiando mais na verdade do sentimento do que no volume.
Uma de suas parcerias mais lembradas foi com o gaitista Snooky Pryor, com quem dividiu palcos e estúdios. Juntos, representavam um elo vivo entre o Delta e Chicago, entre o passado e o presente do blues.
Gravações, legado e reconhecimento tardio
Johnny Young gravou para pequenos selos independentes, deixando registros esparsos, hoje considerados documentos preciosos. Nunca foi um artista de grandes vendas ou reconhecimento imediato, mas sua música atravessou o tempo graças à força de sua identidade.
Seu nome ganhou maior projeção ao participar de sessões históricas que retratam o coração do blues de Chicago, dividindo espaço com músicos fundamentais da época. É nesse contexto que sua arte se preserva: não como estrela, mas como parte essencial de uma engrenagem cultural que manteve o blues vivo.
O álbum em destaque: Otis Spann’s Chicago Blues
Entre esses registros históricos, o álbum Otis Spann’s Chicago Blues ocupa lugar especial. A obra reúne Otis Spann ao lado de gigantes como James Cotton, Big Walter Horton, Johnny Shines e Johnny Young, funcionando como um retrato fiel do blues de Chicago nos anos 1960.
O disco é frequentemente descrito como sólido, cru e representativo, alternando momentos de piano intenso com faixas de banda completa. A presença de Johnny Young adiciona uma camada rara à gravação: o som do bandolim, seco e direto, dialoga com a gaita e o piano, reafirmando que o blues é mais sentimento do que formato.
Não se trata de um álbum de virtuosismo excessivo, mas de verdade musical. Um registro que documenta músicos tocando como viviam — sem concessões.
Os últimos anos e a despedida silenciosa
Johnny Young faleceu em 1974, longe dos holofotes e do reconhecimento em larga escala. Sua morte passou quase despercebida pelo grande público, mas não pelos amantes do blues que entendem a importância dos caminhos alternativos.
Hoje, sua obra é redescoberta como símbolo de resistência artística. Johnny Young provou que tradição e originalidade não se excluem, e que o blues aceita todas as vozes sinceras — até mesmo aquelas que escolhem um bandolim para contar histórias antigas.
Celebrar seu nascimento é reafirmar que o blues não pertence apenas aos nomes mais citados, mas também aos que ousaram ser diferentes sem jamais abandonar a verdade.
Johnny Young vive onde o blues ainda é tocado com o coração.


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