Clarence “Pinetop” Smith: o pianista que acelerou o blues
Clarence “Pinetop” Smith: o pianista que acelerou o blues
Clarence “Pinetop” Smith ocupou apenas um sopro de tempo na história da música, mas deixou marcas profundas o suficiente para mudar o rumo do blues e dar nome a um gênero inteiro. Sua jornada foi curta, intensa e brilhante — como todo grande mito que nasce antes da hora e parte antes do tempo.
O menino do Alabama que encontrou sua voz no piano
Nascido em 11 de janeiro de 1904, no coração do Alabama, Pinetop cresceu cercado por um ambiente em que o piano ainda engatinhava como instrumento protagonista nos juke joints e barrelhouses. Foi nesse universo vibrante e improvisado que ele aprendeu a tocar, ouvindo a pulsação rítmica que ecoava por bares empoeirados e festas clandestinas que atravessavam a madrugada.
Desde cedo, chamava atenção por tocar com força, urgência e precisão. Sua mão esquerda criava um motor constante, hipnótico, enquanto a direita desenhava linhas rápidas, dançantes, cheias de personalidade. Era música que não pedia licença — invadia o corpo e puxava para a pista.
Chicago: a cidade onde o boogie-woogie ganhou nome
Ao chegar em Chicago, Pinetop encontrou o cenário ideal para desenvolver sua arte. A cidade fervilhava, transbordava músicos migrantes e novos sons que disputavam cada esquina. Foi ali que ele registrou, em 1928, sua criação definitiva: “Pinetop’s Boogie Woogie”. Não era apenas mais uma gravação — era um marco histórico.
Pela primeira vez, o termo “boogie-woogie” aparecia oficialmente em um disco. E mais do que batizar um estilo, Pinetop lhe deu identidade: um ritmo acelerado, pulsante, dançante, construído sobre o diálogo vivo entre o pianista e o público.
Ao microfone, Pinetop brincava com quem o ouvia, dava ordens de dança, guiava os movimentos da multidão: “agora à esquerda, agora à direita”. Esse jeito falado, quase performático, seria copiado por pianistas ao longo de décadas e se tornaria marca registrada do gênero.
Um legado interrompido cedo demais
A vida de Pinetop tomou um rumo trágico. Em 1929, aos apenas 25 anos, ele foi morto a tiros em Chicago. Não era o alvo da confusão — estava no lugar errado, na hora errada. Seu talento, que poderia ter atravessado décadas, ficou registrado apenas em um punhado de gravações.
Mas bastou. Pinetop havia deixado algo que poucos artistas conseguem: uma transformação definitiva na linguagem musical. Seu trabalho influenciou gigantes como Meade Lux Lewis, Albert Ammons e Pete Johnson, moldando o boogie-woogie e pavimentando caminhos que chegariam até o rock and roll.
Pinetop vive onde o ritmo nunca desacelera
Clarence “Pinetop” Smith não precisou de uma longa carreira para entrar para a história. Sua música acelerou o blues, electrizou as pistas e deu nome a um estilo que ecoa até hoje nas mãos de todo pianista que se arrisca a pulsar o teclado com força e balanço.
Ele vive em cada compasso frenético, em cada mão esquerda que repete frases até incendiar a melodia. Vive no sorriso do público que dança sem perceber que está revivendo um gesto inventado quase um século atrás. Pinetop vive onde o blues não descansa, onde a festa não termina, onde o ritmo nunca desacelera.
© Todo Dia Um Blues

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