Otis Taylor: o blues como transe, memória e resistência
Otis Taylor: o blues como transe, memória e resistência
Otis Mark Taylor nasceu em 30 de julho de 1948, em Chicago, mas foi no Colorado que sua história pessoal e artística começou a tomar forma. Ainda criança, mudou-se com a família para Denver após um episódio de violência racial que marcou profundamente sua infância. Esse deslocamento precoce, entre medo, silêncio e sobrevivência, acabaria moldando a maneira como Taylor transformaria o blues em narrativa, denúncia e ritual.
Criado em um ambiente onde o jazz e o blues faziam parte da rotina doméstica, Otis Taylor teve contato cedo com a música, aprendendo de forma autodidata a tocar guitarra, banjo, gaita, bandolim e outros instrumentos de corda. Desde o início, seu interesse não estava apenas na forma musical, mas no poder da repetição, do ritmo hipnótico e da palavra dita como testemunho.
O blues como estado de transe
Ao longo da carreira, Taylor construiu um estilo próprio frequentemente rotulado como “trance blues”. Mais do que um rótulo, trata-se de uma abordagem estética: grooves repetitivos, linhas minimalistas de banjo ou guitarra, percussão insistente e uma voz grave que narra histórias duras, quase sempre ligadas a racismo, violência, exclusão, memória histórica e justiça social.
Em suas canções, o blues deixa de ser apenas expressão emocional para se tornar documento. Taylor canta como quem conta um caso antigo à beira da estrada — sem pressa, sem ornamentos, deixando que o peso da história faça o trabalho.
Silêncio, retorno e afirmação
A trajetória de Otis Taylor não seguiu uma linha contínua. Após experiências musicais nos anos 1960 e 1970, ele se afastou da cena profissional por um longo período, dedicando-se a outras atividades, como o comércio de antiguidades. O retorno só aconteceu em meados da década de 1990 — e foi definitivo.
A partir desse momento, Taylor passou a lançar uma sequência impressionante de álbuns que consolidaram sua reputação como uma das vozes mais originais do blues contemporâneo. Discos como When Negroes Walked the Earth (1997), White African (2001) e Truth Is Not Fiction (2003) estabeleceram sua identidade sonora: crua, repetitiva, hipnótica e profundamente política.
Banjo, tradição e reinvenção
Um dos elementos centrais da obra de Otis Taylor é o uso do banjo como instrumento principal do blues. Ao resgatar suas raízes africanas e afro-americanas, Taylor subverte a narrativa tradicional que associa o banjo apenas à música rural branca, recolocando o instrumento no centro de uma tradição negra ancestral.
Essa abordagem ganha força em álbuns como Recapturing the Banjo (2008), onde passado e presente dialogam sem nostalgia, mas com consciência histórica.
Reconhecimento, parcerias e legado
Ao longo da carreira, Otis Taylor recebeu reconhecimento da crítica especializada, prêmios e indicações, além de ter suas músicas utilizadas em trilhas sonoras de filmes e séries. Canções como “Ten Million Slaves” ampliaram seu alcance, levando seu blues denso e reflexivo a públicos além do circuito tradicional.
Outro elemento importante de sua trajetória é a parceria com a filha, Cassie Taylor, baixista e vocalista que integrou sua banda por anos, adicionando novas camadas sonoras e afetivas à sua música.
Otis Taylor ao vivo: o blues em estado puro
É no palco, porém, que a proposta artística de Otis Taylor atinge sua forma mais intensa. A repetição ganha corpo, o ritmo se adensa e as narrativas se tornam quase cerimoniais. Essa dimensão é plenamente capturada no álbum Live.
Otis Taylor – Live não é apenas um registro de show, mas uma síntese de sua estética. As versões estendidas, a pulsação constante e a interação entre voz e instrumentos revelam um artista que transforma o blues em experiência física e emocional. Destaque para a longa interpretação de “Hey Joe”, que se estende como um mantra sombrio, reafirmando o poder do blues como linguagem atemporal.
Ao vivo, Otis Taylor não interpreta o blues — ele convoca o blues. E Live é o convite definitivo para entrar nesse transe.

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