Tab Benoit: a guitarra como religião
Tab Benoit: a guitarra como religião
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| Foto: Jean Frank |
Aniversários são marcos. Pontos em que a vida nos obriga a olhar para trás, respirar fundo e perceber o tamanho do caminho percorrido. No blues, poucas trajetórias são tão impregnadas de terra molhada, vento salgado e espírito indomável quanto a de Tab Benoit. Filho da Louisiana mais profunda, guardião da herança cajun, guitarrista de timbre rasgado e fraseado cortante, ele é um desses músicos raros que carregam não apenas um som — mas um lugar inteiro — dentro de cada nota.
Hoje celebramos seu aniversário revisitando uma vida dedicada ao improviso, à estrada, à intensidade e a uma sinceridade musical que poucos conseguem sustentar. A celebração também encontra sua síntese mais recente em um registro poderoso: Live at the 2025 New Orleans Jazz & Heritage Festival, um álbum que captura Tab na sua forma mais pura — ao vivo, diante de seu povo, tocando como quem devolve à terra aquilo que ela mesma ofereceu.
A infância no sul: raízes que determinam o destino
Tab Benoit nasceu em Houma, Louisiana, uma cidade de pescadores, cozinheiros, acordeonistas e histórias contadas ao redor de mesas onde o tempo corre mais devagar. A música chegou para ele como chega para tantos no estado: não como estudo formal, mas como ambiente, como ar. O blues, a música cajun, o zydeco, o swamp rock — tudo isso se misturava em celebrações familiares, em bares de madeira, em festas onde o violão sempre ganhava a palavra final.
O jovem Benoit aprendeu cedo que a música podia curar, unir e transformar. Quando ouviu pela primeira vez a guitarra de Albert Collins e o canto áspero de Muddy Waters, decidiu que queria seguir aquele caminho: contar histórias com cordas, dedos e coração. Sua Telecaster — que mais tarde se tornaria assinatura — ainda nem existia, mas o desejo de expressão já queimava forte.
A formação de um guitarrista singular
Aos 20 e poucos anos, Tab começou a se apresentar em bares locais, chamando atenção pelo estilo direto, cru, sem pedais e sem truques. Sua guitarra ia do amplificador ao mundo, e do mundo ao público. Nada além disso. O som que saía dali não era apenas blues: era pântano, era calor, era tempestade chegando na beira da baía.
Essa autenticidade marcou sua carreira desde o início. Quando lançou seus primeiros discos pela Justice Records, Tab já soava como alguém que não apenas respeitava a tradição — ele fazia parte dela. Cada álbum parecia dizer: “o blues da Louisiana está vivo, pulsante e continua aqui”.
Os anos 1990 e 2000 aprofundaram sua reputação. Suas turnês tornaram-se intensas, seus discos ganharam maturidade, e sua presença ao vivo passou a atrair uma legião de admiradores. Guitarra ardente, voz rouca, humor afiado e uma conexão emocional com a plateia que poucos performers alcançam. Tab Benoit não toca para impressionar — toca para conversar.
O defensor da Louisiana
Mas Tab nunca foi apenas um músico. Ele também se tornou uma voz importante na preservação ambiental do sul da Louisiana, especialmente das áreas costeiras que sofrem com erosão acelerada. Criou projetos, participou de campanhas, levantou bandeiras e usou sua fama para defender sua terra.
Para ele, a música é inseparável do espaço que a cria. Defender o pântano é defender o blues — é proteger o som do mundo que o formou.
A guitarra como religião
Em shows, Tab Benoit é uma força. Um intérprete visceral. Sua técnica não se apoia em virtuosismos exagerados, mas na precisão da emoção. Ele toca como quem carrega o peso da estrada nos ombros e a leveza de um pássaro nos dedos.
Seu timbre é sua assinatura. A Telecaster, ligada diretamente a um amplificador Fender, projeta um som quase vocal. A cada frase, uma conversa. A cada bend, uma história. A cada silêncio, um arrepio.
O público reconhece isso de longe: Tab é daqueles artistas que você identifica em segundos — mesmo sem ver a capa do disco.
Do estúdio ao palco: uma discografia que narra uma vida
Ao longo das décadas, Tab lançou álbuns que se tornaram referência no blues contemporâneo. Mas é no palco onde sua magia se amplia. Os registros ao vivo sempre foram highlights de sua carreira, porque representam exatamente aquilo que ele mais valoriza: espontaneidade, energia e honestidade.
E foi justamente essa combinação que imortalizou seu mais recente trabalho ao vivo, gravado em um dos palcos mais emblemáticos do mundo.
Live at the 2025 New Orleans Jazz & Heritage Festival: a chama do agora
Há discos ao vivo que documentam um show. E há discos ao vivo que documentam um momento histórico. Live at the 2025 New Orleans Jazz & Heritage Festival pertence ao segundo grupo. Capturado durante a edição de 2025 do lendário festival de New Orleans, o álbum registra Tab Benoit diante de uma multidão que já conhece seu nome, seu som e sua alma.
Desde o primeiro ataque de guitarra, o público sabe que está prestes a testemunhar algo especial. O calor do bayou parece sair pelas caixas de som. A banda toca com a precisão de quem vive junto na estrada — e com a liberdade de quem confia totalmente no improviso.
As faixas incluem:
- Medicine — um explosivo cartão de visitas, onde a guitarra lateja como febre.
- Why Why — balanço cajun com veneno e doçura na medida certa.
- Nothing Takes the Place of You — interpretação delicada, emocionada, quase um abraço musical.
- The Ghost of Gatemouth Brown — homenagem direta a uma das grandes influências de Tab.
- Band Introductions — momento descontraído, marca registrada de seus shows.
- I Hear Thunder > Still Gray — trecho épico que une força e melancolia.
- Boat Launch Baby — encerramento elétrico, divertido, pulsante.
O álbum não traz convidados especiais. Não precisa. A força está na banda, no improviso, na energia bruta do festival. É Tab Benoit em estado de arte, sem filtros, sem adornos — apenas a verdade amplificada.
Ouvir esse disco é sentir o cheiro da comida nas barracas, o calor grudando na pele, o público vibrando a cada frase da guitarra. É como estar lá.
A maturidade de um mestre
O aniversário de Tab Benoit não celebra apenas a passagem do tempo — celebra a permanência. Ele continua lançando álbuns relevantes, fazendo turnês intensas, defendendo o que acredita e tocando com a mesma paixão dos primeiros anos.
No blues, muitos envelhecem. Poucos amadurecem. Tab está no segundo grupo. Sua música hoje tem mais silêncio, mais nuance, mais sabedoria. Mas continua incendiária quando precisa ser.
Ele evoluiu sem perder a essência. Ampliou horizontes sem abandonar suas raízes. Cresceu sem deixar de ser local.
Esse equilíbrio explica por que Tab Benoit segue sendo um dos nomes mais respeitados do blues contemporâneo. E explica por que seu aniversário merece ser celebrado como se celebra uma colheita farta: com gratidão, alegria e a certeza de que o fruto ainda está crescendo.
A herança de um filho da Louisiana
Quando pensamos no futuro do blues da Louisiana, o nome de Tab Benoit aparece como um farol. Ele mantém viva a tradição, mas não se limita a repeti-la. Ele renova, recria, reinventa — sempre mantendo a identidade que o tornou único.
Tab é, hoje, uma ponte entre a história e o presente. Entre o pântano e o palco. Entre os que vieram antes e os que virão depois.
Seu aniversário não celebra apenas um músico. Celebra um guardião da cultura, um defensor da terra, um artista completo que continua acrescentando novas páginas a uma história que merece ser contada — e ouvida — com respeito e admiração.
Celebrar é ouvir
No dia de Tab Benoit, a melhor homenagem é simples: colocar um disco para tocar. Talvez aquele clássico de anos atrás. Talvez um registro potente de sua fase mais recente. Talvez — e aqui fica a recomendação — o vibrante Live at the 2025 New Orleans Jazz & Heritage Festival, onde Tab soa como se estivesse, mais uma vez, começando. Ou recomeçando. Ou simplesmente vivendo aquilo que nasceu para fazer.
Porque ele é isso: um homem que vive de música. E música, nele, vive mais forte do que
© Todo Dia Um Blues — 2025.


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