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Mostrando postagens de novembro, 2025

Clarence Green: blues, jazz e soul na medida certa

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Clarence Green: blues, jazz e soul na medida certa Há artistas que caminham pelo blues como quem pisa em brasas, deixando um rastro de intensidade que só a vida dura — e profundamente honesta — consegue moldar. Clarence Green é um desses nomes. Guitarrista texano de mão quente, espírito livre e fraseado marcante, ele viveu entre bares pequenos, palcos de chão pegajoso e ensaios infinitos em busca de um som que fosse só dele. E conseguiu. O blues sabe reconhecer seus filhos mais inquietos. Os primeiros passos de um músico singular Nascido no Texas, Clarence cresceu cercado pela música que saía das rádios e das esquinas, aprendendo cedo os códigos do blues urbano que se misturavam ao swing e ao R&B local. Era um guitarrista de alma, daqueles capazes de transformar uma frase simples em um grito de emoção. A técnica impressionava, mas o que realmente chamava atenção era sua capacidade de fazer a guitarra “falar” . Com o tempo, Clarence passou a integrar diferentes bandas da c...

John Mayall: o arquiteto do blues britânico

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John Mayall: o arquiteto do blues britânico Photo: Claus Hampel Há nomes que atravessam a história como trilhas luminosas, mas há outros que a sustentam — silenciosos, persistentes, fundamentais. John Mayall pertence a essa segunda linhagem: a dos arquitetos. Em 29 de novembro, ele completaria 92 anos. E lembrar sua obra é revisitar não apenas a vida de um bluesman, mas o esqueleto inteiro do blues britânico , moldado por suas mãos, seus ouvidos e sua teimosa devoção. A infância entre discos, tintas e segredos da música negra John Mayall nasceu em 1933, na pacata Macclesfield, Inglaterra — um lugar onde o blues parecia tão distante quanto o sol da Califórnia. Mas o destino gosta das suas ironias. Seu pai, guitarrista amador e apaixonado por jazz, guardava em casa uma coleção que carregava Bessie Smith, Lead Belly, Eddie Lang e Big Bill Broonzy . Ali, ainda menino, John descobriu que havia um mundo pulsando por trás das vozes roucas e violões feridos. Antes da música...

Little Johnny Taylor: o blues que sangra, pulsa e nunca se cala

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Little Johnny Taylor: o blues que sangra, pulsa e nunca se cala Little Johnny Taylor nunca foi apenas uma voz — foi um eco profundo vindo das esquinas menos iluminadas da soul music e do blues elétrico. Um cantor que carregava na garganta a poeira das ruas, o peso dos erros, a doçura dos acertos e a urgência de quem sabia que o tempo era curto, mas a música, infinita. Sua trajetória, marcada por brilho e turbulência, é uma das mais intensas da tradição do blues moderno. A semente do canto: primeiros passos Nascido em 1934, no Arkansas, Johnny Taylor cresceu entre os cânticos das igrejas, os cantores de rua e o eco distante das primeiras transmissões de rhythm & blues. Ali, ainda menino, moldou sua sensibilidade vocal, aprendendo que o canto não precisava ser perfeito — precisava ser verdadeiro. Sua mudança para a Califórnia, anos depois, abriu portas e microfones. Nos clubes da Costa Oeste, ele encontrou o cenário ideal para refinar a mistura que se tornaria sua marca: blues...

Sean McDonald: a chama nova do blues e o clamor de Heavy Mercy!

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Sean McDonald: a chama nova do blues e o clamor de Heavy Mercy! Há artistas que surgem como quem abre uma porta antiga e deixa entrar um vento novo. Sean McDonald é exatamente esse tipo de músico: jovem, intenso, dono de uma sensibilidade rara para o blues de raiz e, ao mesmo tempo, capaz de imprimir brilho próprio a cada nota. Sua trajetória, ainda curta, já carrega a vibração dos que nasceram para o palco — e para continuar a história de um gênero que nunca para de se reinventar. Nascido e criado entre igrejas, clubes pequenos e gravações feitas com espírito de artesanato, McDonald cresceu inspirado por vozes que sopravam verdades antigas: o gospel que molda a alma, o R&B dos anos 50 que acende o corpo, o blues profundo que atravessa gerações. O resultado dessa formação é uma mistura que não soa acadêmica nem reverente demais. Pelo contrário: há um frescor intenso na maneira como ele se movimenta entre estilos, como se estivesse revisitando o passado com os pés firmados no ...

Robert Wilkins: O pregador do blues regravado pelos Rolling Stones

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Robert Wilkins: O pregador do blues regravado pelos Rolling Stones Há figuras no blues que parecem caminhar entre dois mundos — o sagrado e o profano — deixando suas pegadas marcadas em solo de poeira, fé e sobrevivência. Robert Timothy Wilkins pertence a essa linhagem rara: um músico que atravessou as curvas do Delta, viveu os dias de glória e caos dos anos 20, encontrou refúgio na religião e, décadas depois, ressurgiu como uma voz ancestral no renascimento do blues dos anos 60. Sua vida parece um cântico dividido em versos: queda, descoberta, silêncio, revelação. O começo: o blues antes de saber que era blues Wilkins nasceu em 1896, no Mississippi, cercado por campos que pareciam cantar baixinho as dores e esperanças de quem passava por eles. Desde cedo, aprendeu a linguagem da rua, do violão e das festas onde o ritmo escapava das mãos como se tivesse vida própria. Nos anos 20, tornou-se um nome respeitado na região de Memphis — um músico versátil, com habilidade rara para na...

Davy Knowles: o guitarrista que transforma tradição em futuro

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Davy Knowles: o guitarrista que transforma tradição em futuro Há artistas que carregam o blues como quem leva uma herança frágil, com medo de quebrá-la. E há os que empunham essa herança como quem acende novamente a chama. Davy Knowles pertence a essa segunda espécie: músicos que entendem que o blues nunca foi sobre nostalgia, mas sobre continuidade — uma corrente que passa de mãos calejadas para mãos inquietas. Nascido na Ilha de Man, um ponto remoto no mapa e improvável berço de um dos guitarristas mais expressivos de sua geração, Knowles descobriu cedo que a guitarra poderia ser tanto um portal quanto um destino. Ao longo das últimas duas décadas, ele construiu uma carreira sólida, movida pela mistura de reverência pela velha guarda e um profundo desejo de criar sua própria linguagem. O resultado é uma obra que mora no encontro entre tradição e modernidade, entre a poeira do passado e o brilho das novas estradas. Da Ilha de Man para o mundo: o nascimento do Back Door Slam A...

Yates McKendree: o prodígio que carrega o blues na alma

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Yates McKendree: o prodígio que carrega o blues na alma Há artistas que chegam cedo demais — e ainda assim soam como se sempre tivessem estado aqui. Yates McKendree é um desses raros fenômenos. Filho prodigioso, músico completo, premiado com o GRAMMY antes mesmo de muitos o descobrirem, ele vem redesenhando o mapa do blues contemporâneo com a calma de quem entende que, antes de inovar, é preciso honrar cada tijolo do passado. Seu mais recente trabalho, Need to Know , confirma essa trajetória luminosa: um álbum quente, vivo, carregado de alma e gravado como se o Mississippi ainda corresse pelas ruas do século XXI. O menino que cresceu dentro do estúdio Yates McKendree não virou músico. Ele nasceu músico. Cresceu cercado por instrumentos, cabos, amplificadores e histórias — muitas histórias — dentro do respeitado estúdio Blackbird , onde seu pai, Kevin McKendree, consolidou uma reputação lendária como produtor, pianista e guardião da velha escola do blues. Para Yates, aquele ambie...

Albert Cummings: Do encontro com o Double Trouble ao brilho de uma das carreiras mais sólidas do blues moderno

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Albert Cummings: Do encontro com o Double Trouble ao brilho de uma das carreiras mais sólidas do blues moderno Albert Cummings é daqueles artistas que carregam o blues como quem segura uma ferramenta antiga, herdada de pai para filho, marcada por calos e memória. Nascido em Massachusetts, ele cresceu entre oficinas, trabalhos braçais e o cheiro de madeira recém-cortada — heranças do ofício de carpinteiro que seguiu durante a vida adulta. Mas, mesmo com a rotina pesada, havia algo nele que já pedia passagem: uma urgência elétrica, um sopro de criação que anos depois se transformaria em uma das carreiras mais sólidas do blues contemporâneo. Antes de chegar ao mundo dos palcos, Cummings carregava outra paixão: a música country e o bluegrass que embalavam sua juventude. O banjo foi seu primeiro instrumento, um companheiro tímido que anunciava o que viria. O encontro com o blues aconteceu mais tarde, como uma revelação. A partir daquele instante, guitarra e alma passaram a caminhar ju...

Angela Strehli: a voz feminina do texas blues

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Angela Strehli: a voz feminina do texas blues Angela Strehli aniversaria — e nós celebramos uma das artistas mais luminosas do blues texano. Sua trajetória atravessa décadas de música, resistência cultural e entrega absoluta ao sentimento que molda cada nota. Já falamos dela quando revisitamos “ O Álbum dos Sonhos ”, ao lado de Marcia Ball e Lou Ann Barton , mas hoje o palco é só seu. É o momento de honrar a mulher cuja presença ajudou a erguer pontes, casas, memórias e quintais inteiros de blues. A jovem que correu atrás do som Nascida na Califórnia e moldada pelo calor do Texas, Angela Strehli encontrou no blues não apenas um gênero, mas um destino . Desde cedo, mergulhou nos discos de Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Memphis Minnie, trazendo para si uma educação sentimental que nenhum conservatório ensinaria. Seu timbre, cheio de curva e poeira, parecia anunciar que ali havia alguém que carregaria a tocha. Nos anos 60 e 70, ela se tornou parte vital da efervescente cena de Aus...

Lloyd Glenn: o lendário pianista do West Coast Blues

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Lloyd Glenn: o lendário pianista do West Coast Blues Há nomes no blues que brilham como faróis — intensos, urgentes, revolucionários. E há aqueles que iluminam com outra energia, mais suave, mais refinada, quase como um sorriso deixado no canto do palco. Lloyd Glenn foi desses. Um mestre que não precisou erguer a voz nem rachar amplificadores para conquistar seu lugar na história. Bastou-lhe um piano, bom gosto inabalável e a capacidade rara de transformar cada nota em elegância. Da infância texana ao nascimento de um estilo Nascido em 21 de novembro de 1909, em San Antonio, Texas, Glenn cresceu respirando a música que brotava das esquinas, dos bailes comunitários, das igrejas e dos salões improvisados. Desde cedo entendeu que o piano podia ser ao mesmo tempo tambor, melodia e alma — e fez dessa percepção sua assinatura. Adolescente ainda, já era requisitado como pianista profissional, navegando entre o blues, o jazz tradicional e a música de dança que agitava o sudoeste america...

Mark Selby: vida, carreira e legado no blues-rock americano

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Mark Selby: vida, carreira e legado no blues-rock americano Há artistas que soam como se tivessem nascido com o vento do sul preso às cordas do violão. Mark Selby era um desses. Um guitarrista que caminhava entre raízes profundas do blues e a eletricidade crua do rock, carregando nas mãos um som terroso, sincero e cheio de alma. Sua vida, sua obra e seu adeus precoce formam uma narrativa marcada por intensidade, sensibilidade e entrega absoluta à música. Da infância em Oklahoma ao chamado de Nashville Mark Otis Selby nasceu em 2 de setembro de 1961, em Enid, Oklahoma. Criado em um ambiente simples, descobriu cedo que a música era sua rota para o mundo. Estudou composição musical e, com o tempo, lapidou o olhar de compositor e a mão de guitarrista que o tornariam um nome querido no blues-rock contemporâneo. A mudança para Nashville, nos anos 1990, foi decisiva. Na cidade dos compositores, Selby encontrou terreno fértil para desenvolver não só sua carreira solo, mas também uma tr...

Luther Dickinson: tradição e futuro dançando no mesmo círculo

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Luther Dickinson: tradição e futuro dançando no mesmo círculo Há artistas que caminham pelo blues como quem percorre uma estrada antiga, seguindo trilhas abertas por gigantes, devagar, sem arriscar passos fora do chão firme. E há aqueles que, mesmo reverenciando o passado, enxergam no horizonte uma chance de reinventar a tradição sem quebrá-la. Luther Dickinson pertence a essa segunda linhagem. Ele é o músico que herdou o espírito do Mississippi, poliu-o com mãos inquietas e o devolveu ao mundo em novas formas — elétricas, espirituais, modernas, mas cheias de barro, alma e memória. Produtor, cantor, guitarrista nato, guardião das heranças rurais e alquimista da experimentação sonora, Dickinson construiu uma carreira que hoje se espalha por trilhas múltiplas: seus discos solo, as colaborações, os projetos paralelos, os trabalhos de produção e, claro, o coração pulsante de sua trajetória — o North Mississippi Allstars , banda que cofundou com seu irmão, Cody Dickinson. Um grupo cap...

Otis Spann: um pianista colossal

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Otis Spann: um pianista colossal  Há nomes que soam como marteladas na alma do blues. Há outros que soam como vento, como lamento, como água corrente — e entre esses está Otis Spann , o pianista que transformou o teclado em testemunha, altar e confessionário. Sua história é uma daquelas trajetórias que parecem nascer no solo quente do Mississippi e ganhar forma nas esquinas frias de Chicago, onde a vida exige coragem, talento e um coração disposto a sangrar pelo som. A infância que já carregava o blues Otis Spann nasceu em 21 de março de 1930, em Jackson, Mississippi, numa região em que o blues não era apenas música — era sobrevivência. Filho de uma pianista de igreja e de um pai que tocava violão, cresceu com o instrumento como extensão natural do corpo. Diziam os vizinhos que, ainda criança, Otis sentava no banquinho, fechava os olhos e deixava os dedos encontrarem a nota mais triste do dia. O piano, para ele, nunca foi um objeto — foi companhia. Na adolescência, já to...